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terça-feira, 3 de junho de 2014

JULGAMENTO: o despertar para a Vida






Quando, pelas manhãs, ouço na TV uma determinada apresentadora dizendo “Acorda, menina! Acorda, menino!” não consigo deixar de pensar no Arcano XX do tarot, o JULGAMENTO. Esse “acordar para a vida”, “despertar do sono da noite” tem tudo a ver com a “chamada” para a vida, a trombeta que o Anjo faz soar anunciando um novo amanhecer.
O JULGAMENTO representa uma ressurreição no sentido em que podemos interpretar essa fase como uma vitória sobre o sono (um ensaio da morte) que nos impede de associarmos as recordações do passado (nossa memória) com a nossa consciência do mundo (lógica e razão).

Estive relendo, no site da Associação dos Alcoólicos Anônimos (A.A.A.) os chamados 12 Passos, um auto-de-fé, um confessional, um manual de ajuda espiritual no controle dessa doença crônica que é o alcoolismo e o reencontrar-se da pessoa consigo mesma, consciente das suas dificuldades, das suas fragilidades, da própria doença, mas dona de sua própria vontade. Creio que, independente da doutrina que qualquer pessoa siga e pratique, esses “passos” vêm comprovar a necessidade de recorrermos à ajuda espiritual, ou seja, à união da vontade humana com a vontade do nosso Divino interior, em diversas situações da nossa vida quando precisamos de uma chance de recomeçar, de renascer. É a razão, o estado mental consciente agindo em comum acordo com o inconsciente.

Permiti-me fazer comentários estritamente pessoais (em cor negra) correlacionando esse caminhar com as cartas do tarot, a viagem do Louco, Arcano 0 (nós mesmos, em nosso estado mais puro, mais instintivo, mais inocente). Evidentemente inúmeras outras conotações com outros Arcanos podem e devem ser feitas pois um dos grande fascínios do tarot é que nele nada “é” (definitivo), mas tudo “pode ser”, dependendo das circunstâncias, das questões abordadas, das demais cartas e do tipo de jogada, além da experiência pessoal de vida de quem realiza a leitura.

OS DOZE PASSOS

 
PRIMEIRO PASSO:
Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
(a abdicação do controle, tornar-se dependente, prisão: Diabo, Arcano XV) 


SEGUNDO PASSO:
Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
(libertação através do colapso de velhas estruturas favorecendo a aceitação de uma nova realidade: a Torre, Arcano XVI) 


TERCEIRO PASSO:
Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
(renunciar ao controle e alterar as prioridades: o Pendurado, Arcano XII) 


QUARTO PASSO:
Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
(necessidade de saber a verdade a qualquer custo: o Eremita, Arcano IX) 


QUINTO PASSO:
Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
(reconciliar-se com a admissão de erros, esclarecer e aceitar a verdade: o Sol, Arcano XIX) 


SEXTO PASSO:
Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
(chegar ao ponto nevrálgico da questão e permitir o fim de um velho ciclo: a Morte, Arcano XIII) 


SÉTIMO PASSO:
Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
(transmutação, cura e purificação: a Temperança, Arcano XIV) 


OITAVO PASSO:
Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
(restabelecimento da harmonia e aceitação das responsabilidades: a Justiça, Arcano VIII) 


NONO PASSO:
Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
(tomar o controle da situação agindo com equilíbrio, honestidade e perseverança: o Carro, Arcano VII) 


DÉCIMO PASSO:
Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
(autoconhecimento, coragem, força: a Força, Arcano XI)) 


DÉCIMO PRIMEIRO PASSO:
Procuramos através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que o concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade.
(inspiração, autoconfiança, fé: a Estrela, Arcano XVII) 


DÉCIMO SEGUNDO PASSO:
Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.
(abandono de velhos valores e adoção de novos princípios: Julgamento, Arcano XX)

A lista acima foi copiada (cor azul) do site dos Alcóolicos Anônimos.


Podemos observar na grande maioria de representações dessa carta do tarot, o JULGAMENTO, que ela é “coletiva”, é uma carta que se refere a uma transformação de consciência que é, muitas vezes, interdependente de uma conscientização de um grupo e um passo em direção da percepção de que fazemos parte de um todo maior, que é a nossa natureza divina. Portanto, a carta do JULGAMENTO diz que essa iluminação interior, esse ressurgir das cinzas não é apenas algo pessoal mas afeta a todos os demais. 

Em outras palavras, a minha recuperação, minha regeneração, meu renascer também depende muito do seu, de você que está me lendo neste momento e ambos influenciamos um terceiro. 

Estamos todos juntos nisso.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

8 DE ESPADAS: as armadilhas da mente


 "Spider - Desafie sua Mente" é o nome de um filme de David Cronemberg e nele, um homem recém saído de uma instituição mental onde viveu desde a infância, pára, por conta própria de tomar a sua medicação e volta, assim, a reviver as lembranças de um terrível passado. A frase que define o enredo é a seguinte: “A pior coisa que pode haver além de perder a sua memória é voltar a encontrá-la.”

Nosso cérebro é onde processamos a realidade que vivemos, as sensações que temos, as emoções que experimentamos. Nossa mente trabalha continuamente colhendo, analisando, classificando informações de todos os tipos, vindas de todos os lugares, absorvidas pelos nossos sentidos. É um verdadeiro supercomputador e, como tal, também pode “travar”. Assim como alguns programas são “pesados” demais para determinadas máquinas, algumas estruturas mentais que criamos são muito difíceis de serem assimiladas ou vividas e acabam por se transformarem num vírus que se instala e dificulta a execução de todos os outros processos mentais.


Como qualquer outro vírus instalado num computador, esse também modifica a estrutura do nosso processador mental, alterando-lhe a capacidade de reconhecer a realidade, de exercer plenamente suas funções. Acabamos, vítimas de seus efeitos, tecendo, pensamento a pensamento, um véu que nos encobre, nublando nosso raciocínio lógico e a nossa capacidade de nos perceber e perceber, também o nosso ambiente, colorindo nossa existência com outros tons, muitas vezes mais sombrios.

Ficamos prisioneiros de uma ideia. Temos delírios de uma falsa realidade. Ficamos obcecados com uma única maneira de encarar os fatos; perdemos o controle nossos pensamentos, que acabam servindo unicamente aos nefandos propósitos desse “vírus”: nos atormentar, nos aprisionar em seus invisíveis e possantes fios. Ficamos, literalmente, imobilizados, com os “pés e mãos atados”, como dizemos popularmente. Além disso, um verdadeiro muro ergue-se rapidamente, impedindo que enxerguemos nada além que suas frias e soturnas paredes. Estamos ilhados, isolados, perdidos, presos dentro da pior das prisões que existe: nós mesmos.

Quando um 8 DE ESPADAS aparece numa leitura de tarot, sempre dependendo de sua localização no jogo e das outras cartas à sua volta, ele pode estar sugerindo que reavaliemos nossas verdades, nossos conceitos e preconceitos; pode estar sinalizando que nos tornamos dependentes da opinião alheia, inábeis de tomarmos nossas próprias decisões, preferindo ser conduzidos a nos conduzir. Pode, eventualmente, indicar um estado de doença que demanda repouso, quietude, isolamento. Em muitos casos, pode ser interpretado como arrogante teimosia, quando não queremos alterar nossa maneira de pensar ou agir, mesmo que ela não sejam racionalmente corretas. Pessoas que se deixam dominar pelo ciúme, ou se deixam fazer prisioneiras dos ciúmes de alguém, também são representadas pelo 8 de Espadas. A censura que infligimos ou sofremos, estão simbolizadas por essa carta.

Enfim, o 8 DE ESPADAS, numa leitura, é um sinal vermelho de que alguma coisa dentro de nós está querendo “travar”. É hora, então, de passar um “antivírus”, ou seja, refletir com calma, analisando cada aspecto isolado da situação e, depois, todo o conjunto de fatos. Ser claro e verdadeiro consigo mesmo. Não se autoiludir. Tirar a venda dos olhos e encarar a realidade à luz da razão. Como no arcano VIII, a JUSTIÇA, usar de frieza e lógicas absolutas para avaliar os fatos, sem cair na armadilha de ser tendencioso, esconder provas ou não querer ouvir testemunhas (opiniões de especialistas ou pessoas de confiança). Enfrentar os fatos pode ser muito doloroso, mas sempre será menos do que viver com medo, angustiado, escondendo-se do mundo ou de nós mesmos. 


Deveríamos sempre nos lembrar que o cérebro deveria ser utilizado para a solução de problemas e não a construção de dificuldades maiores.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O PENDURADO: quando a Vida nos exige sacrifícios


O jogo “da forca” é aquele em que, a cada letra errada para formar uma determinada palavra, o jogador vai acrescentando mais uma parte ao desenho que o representa. O que ele não pode deixar que aconteça é cometer tantos erros que façam com que seu avatar iconográfico fique completo. O pior é que essa figurinha enquanto vai sendo completada devido aos erros do jogador, vai sendo enforcada.A foto acima tem alguma coisa dessa brincadeira. O indivíduo vai criando marcas nas paredes, que talvez representem os dias em que está encarcerado ou, mesmo, os seus erros. Enquanto isso, vai-se formando, membro a membro, a figura a ser enforcada. E, note-se, o próprio homem já está com uma corda no pescoço...


Quase em todas as diversas representações artísticas do Arcano XII, o PENDURADO (que muitos, Enforcado), encontramos representada uma situação semelhante à da imagem acima. Tudo nele me lembra um tempo forçado de reclusão. Uma época em que nada progride. Paira no ar a ameaça de que a situação pode ainda piorar...

Sem dúvidas, ficar pendurado por uma perna deve ser, antes de mais nada, algo altamente doloroso. Uma tortura. Além do fato de que seria necessário um grande preparo físico, talvez o de um atleta olímpico, para a própria pessoa conseguir flexionar-se de livrar-se da amarra. Ainda assim corre o risco de cair de cabeça.
Tem-se que considerar também o fato de que, imobilizado, o sujeito não tem condições de fazer valer o seu direito de ir e vir, o seu livre arbítrio quanto às opções de onde estar. Como se isso já não fosse o suficiente, ficar numa situação inversa aos demais, contrária àquilo que chamamos de normalidade, expõe o indivíduo ao escárnio alheio. Torna-se motivo de chacota. Tem sua autoestima aviltada. O Ego reduz-se a uma sombra do que já foi.


Ninguém opta por esse tipo de situação de boa vontade ou porque assim o quer, a não ser, é claro, aqueles que vivem de fazerem-se de “pobres vítimas de um destino cruel, enjeitados por todos, frutos do desprezo de um deus cruel”. Normalmente, quando nos vemos nesse triste papel de PENDURADO, é porque não tínhamos ou não encontramos outra opção, está além das nossas forças, da nossa vontade. É um acontecimento que não temos controle, ao qual temos que nos resignar e vive-lo em sua extensão, esperando que, ao menos, sua duração seja breve e que possamos descobrir logo a "palavra oculta", a razão do porque estarmos envolvidos em tal episódio, e nos livrarmos da corda que vai, como no jogo da forca, se apertando em nossos pescoços. 


É comum nos perguntarmos, enquanto passamos por situações que nos limitam a ação, nos sufocam, nos obrigam a rever toda uma filosofia de vida, ou que nos forçam a esperar por resultados que parecem nunca acontecer, se realmente acreditamos numa recompensa qualquer para esse tipo de, digamos, tortura ou sacrifício. Grande parte das ilustrações desse Arcano acrescentam um halo de luz, numa referência quase explícita à divindade ou à iluminação interior, no pobre coitado que balança pendurado pelo pé. Isso para nos recordar que todo sacrifício nos redime, nos eleva espiritualmente, nos torna melhores e deles saímos mais sábios, experientes, preparados, com um outro olhar sobre tudo e todos.


Quando essa carta surge numa leitura de tarot, dependendo, é claro, da sua posição na jogada e das
outras cartas que a acompanham, que devemos nos preparar para um período de "pés e mãos atados". Aquelas épocas em que, por algum motivo, ficamos impossibilitados de tomar alguma ação concreta.

Alguns exemplos: uma doença que nos obriga a ficar acamados, a perda ou quebra de um equipamento indispensável ao nosso trabalho, o tempo que o banco demora para realizar a transferência tão aguardada, os dias e anos que dedicamos nos cuidados daquele ente querido adoentado, ficando-lhe todo o tempo à cabeceira ou à disposição.


Em todos esses exemplos à o caráter de resignação, de imobilidade, de auto sacrifício o que de mais significativo essa carta sugere. E o que fazer nessas situações, já que normalmente não temos total controle das mesmas? É aí que entra a reflexão proposta pelo PENDURADO que é a de que esses períodos em que a nossa vida parece estar em estado de suspensão são preparatórios para os que virão a seguir, quando então, de alguma maneira, seremos recompensados e talvez essa recompensa esteja muito mais ligada à nossa evolução no rumo do crescimento espiritual. 
Esperemos que assim o seja.