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terça-feira, 20 de maio de 2014

4 DE ESPADAS: Trégua, ou, a pausa que regenera




 “A pausa que refresca”. Esse foi um dos mais famosos slogans de uma marca de refrigerante que dominou o mundo através de uma maciça, criativa, popular, e sem data para terminar, campanha publicitária. Enfim, há que se reconhecer que uma simples receita de um “tônico” tenha evoluído para uma das marcas mais valiosas e, como bebida, tenha atingido e agradado a tantos, em todas as regiões do globo que, indiferentes às críticas e advertências de médicos e nutricionistas, continuam a consumi-la.

Mas o que mais chama a atenção na publicidade acima é a frase que a acompanha e justifica a imagem que a ilustra. A dona de casa, entre tantos afazeres domésticos, concede-se alguns momentos de distanciamento de suas obrigações e dedica-se a saborear... o dia, o tempo que passa, as imagens que surgem em sua mente, a satisfação de estar ali, presente, vivendo aquele momento sem expectativas ou ansiedades. É um momento de recuperação, de restauro das energias. Hora de recarregar as baterias. Um intervalo entre uma e outra atividades.

O soldado em sua armadura, deitado sobre a laje fria no interior de um santuário (repare o vitral da janela), imagem do Arcano 4 DE ESPADAS do tarot, também parece estar gozando de uma “pausa refrescante”. Deitado sobre uma espada, mas com outras 3 pendentes sobre si, em muito se assemelha à mulher da figura no alto desta página: dando um tempo entre tarefas a serem cumpridas, lutas a serem travadas, obstáculos a serem vencidos, planos a serem pensados, problemas a serem resolvidos, assuntos a serem discutidos, decisões a serem tomadas. Ele, definitivamente, está "recarregando as baterias".

Ainda que ele não faça uso do estimulante e gaseificado frescor do refrigerante, ele busca o tranquilo e silencioso ambiente do claustro para isolar-se, momentaneamente, e repor as energias que lhe serão necessárias para solucionar todas as pendências. Cada um à sua maneira, encontra uma forma de desestressar-se no transcorrer da execução de suas obrigações e compromissos. Inúmeras vezes nos vemos “bombardeados” com uma sucessão de problemas a serem resolvidos, de atividades a serem cumpridas, e acabamos por resolver tudo às custas de muito esforço e sacrifício, terminando esgotados e sem nenhuma satisfação com todo o processo. Noutras, nos atrapalhamos na execução dos mesmos e não os completamos ou, pior, os realizamos mal, de maneira errônea, devido à impossibilidade de nos concentrarmos num só a cada vez. Em todos os casos, saímos decepcionados e vencidos, com uma sensação de amarga sensação de incapacidade.

Entretanto, o que a carta do 4 DE ESPADAS do tarot simboliza é a busca de uma estabilidade pessoal, de um equilíbrio, de uma harmonia interior. O guerreiro está deitado, perfeitamente apoiado à pedra que o suporta. Sua posição é formal, equilibrada, porém tranquila. A espada que está sob seu corpo pode estar sugerindo que, entre os problemas a serem pensados e resolvidos, alguns já foram solucionados, enquanto que outros aguardam, seu retorno à ativa, para serem avaliados e resolvidos e esses pendem ameaçadoramente sobre a sua cabeça.

Saber o momento de fazer uma trégua na luta diária, consciente que tudo poderá ser melhor esclarecido, analisado e executado se estivermos no melhor do nosso desempenho físico, mental e emocional, é um bom pressuposto para ações vitoriosas.

Há aqueles que preferem parar tudo o que estão fazendo e sairem para uma breve caminhada; outros relaxam por alguns minutos ouvindo música; alguns leem um poema um capítulo de um livro, folheiam uma revista; há quem prefira meditar. Qualquer que seja o método usado, o importante é aproveitar esses momentos para desviar a atenção do assunto em questão e procurar reencontrar o equilíbrio perdido. Para “cabeça quente” nada melhor que uma pausa refrescante, regeneradora. Portanto, se um refrigerante, um suco ou uma água de coco geladinha ajuda... Por que não?

quinta-feira, 15 de maio de 2014

7 DE ESPADAS: O TIRO PELA CULATRA


Uma conhecida companhia italiana produtora de máquinas para fazer café expresso, destaca-se pela qualidade e criatividade das suas campanhas publicitárias. Há algum tempo lançaram uma em que associavam seus produtos aos heróis das histórias em quadrinhos. A ilustração acima, tirada de uma das suas publicidades, traz a Mulher-Gato, das histórias do Batman, surpreendida por um... gato! E, pela atitude de ambos, a surpresa, além de naturalmente inesperada, é bastante ameaçadora.

Ela, que certamente havia invadido o território do felino, busca esconder-se, até encontrar uma saída para a situação, usando uma xícara de fumegante café como escudo. O gato verdadeiro, por sua vez, tem como vantagem o tamanho e o fato de ter conseguido surpreender a presa antes que ela o percebesse e fugisse.

A situação toda transpira à tensão, constrangimento, expectativa, argúcia e espanto. A Mulher-Gato parece sobressaltada com a presença do animal. Ele, por sua vez, mantém a postura de ataque, o olhar concentrado e quase hipnótico e uma falsa serenidade, tão própria de quem está acostumado a caçar, utilizando-se de armadilhas e estratégias para conseguir seu intento.

No tarot, o 7 DE ESPADAS pintado pela ilustradora inglesa Pamela Smith remete ao mesmo conceito imagético que a imagem acima pretende retratar: um indivíduo bastante estranho, com uma atitude ladina, carrega 5 espadas, removidas, provavelmente, de uma tenda. Sua intenção parece ser a de desarmar o inimigo, entretanto seu plano parece fadado ao insucesso, visto não ter conseguido carregar todas as espadas. Pior é que duas delas, das deixadas para trás, poderá ser usada pelo seu oponente, por aquele que foi tapeado, iludido, roubado, para ferir mortalmente o incompetente ladrão.

O que chama a atenção nas duas imagens que ilustram este texto, e cuja realização as separa por um século, é o fato que, tanto ao ladrão de espadas quanto à Mulher -Gato, faltaram disciplina e planejamento. A atitude de ambos é claramente amadorística, desorganizada, deixando-os desprevenidos, sem um plano-B, sem um contra-ataque preparado. Ambos foram impetuosos e inconsequentes. 
O 7 DE ESPADAS pode simbolizar uma forma de esperteza que costuma resultar num "tiro pela culatra". Ao invés de usar o cérebro (naipe de Espadas) para resolver determinada situação, a pessoa opta pela "lei do menor esforço", agindo intempestivamente, desprogramada, contentando-se com os sofríveis resultados das tentativas, ao invés de investir na solidez e garantia da obtenção da totalidade do produto final. 
A atitude da figura na carta do tarot é bastante suspeita, favorecendo uma imagem de corrupção, de espionagem, mentira, intriga, que pode ser utilizado para justificar a simbologia desse arcano menor. De qualquer forma, fica claro que o sucesso da empreitada é, tão somente, parcial pois ele não consegue se apossar de tudo o que pretendia.

Na fotografia maior, nem mesmo a esperteza, habilidade, e destreza da Mulher-Gato a fazem imune ao plano descuidado que utilizou para surrupiar o que lhe interessava. Ainda que busque ocultar-se atrás da xícara, sua tática não resultou em bons resultados e, muito provavelmente, cairá na armadilha que ela mesma armou.

Num outro ponto de vista, provavelmente o do gato e das pessoas que tiveram suas espadas roubadas, o 7 DE ESPADAS nos lembra a não permitirmos que se obtenham vantagens injustas sobre nós. Alerta para que se cuide daquilo que se possui, de manter-se firme em suas convicções e não fazer aquilo no que não se acredita. 
O que, entretanto, não se deve deixar de considerar e refletir é que a desconfiança e a manutenção de segredos, quando exagerada, pode conduzir muito mais ao isolamento do que à um possível ideal de segurança. Lembre-se: precaver-se não significa tornar-se paranoico.

terça-feira, 13 de maio de 2014

10 DE PAUS: Opressão consentida


Tem gente que se testa o tempo todo. Vai acrescentando, uma a uma, mais obrigações às muitas outras que acumula, só para se provar poderosa. É o Complexo de Super-Homem, de quem acredita que tudo pode, como se houvesse uma necessidade intima de provar-se competente, imbatível, indispensável, de ser a única e confiável solução para os problemas de todos os demais.

Costuma justificar-se dizendo que não tem paciência para esperar que os demais cumpram suas respectivas partes, portanto assume toda a responsabilidade sobre o que há para ser feito. Nada o impedirá de perseguir até o fim seus objetivos, nem mesmo o fato de cumpri-los, muitas vezes, de maneira maniqueísta, sem buscar o prazer na execução, mas satisfazendo-se em cumprir o "dever" auto atribuído.



Nesta centenária imagem do 10 DE PAUS um homem semi-curvado atravessa o campo, dirigindo-se à umas edificações, carregando um enorme feixe de galhos. A alusão ao peso e ao desconforto dos pedaços de madeira que lhe impedem a visão do caminho, além da forma desajeitada que os galhos estão arrumados em seus braços, sugerem que, muito provavelmente, teria sido mais sábio ter carregado feixes menores e feito mais viagens, ao invés de sobrecarregar-se tentando fazer tudo de uma só vez.

Esse mesmo espírito é semelhante ao que vemos na foto ao alto, onde o homem está praticamente impedido de dirigir seu carro, soterrado por uma impossível quantidade de caixas. Ele também  demonstra não estar usando o melhor de suas habilidades, nem obtendo algum tipo de satisfação na execução de tão absurda tarefa. Na verdade o seu olhar é de uma pessoa oprimida, sem liberdade de manobrar sua condução. Falta-lhe criatividade e flexibilidade, visão do 
conjunto e consciência da importância das partes.

Do fogo criativo e regenerador do naipe de Paus, só restou a demonstração de força, o cabo-de-guerra que o condutor trava consigo mesmo. "Vou provar que eu sou mais forte do que eles supõem", seu olhar transparece, enquanto que ele se afoga sob o peso dos desafios autoimpostos.

Tolice.

Não é a quantidade de projetos, de ideias, de possibilidades, que definirão a capacidade de alguém, mas a qualidade do resultado e o prazer descoberto e vivido a cada etapa de concretização de cada um dos seus desejos. Fogo é pura paixão incontida, é desejo não domado, é a força vital fluindo e trazendo realização. É liberdade, claridade, luz e calor. Não deveria ser oprimido, aprisionado, limitado, contido.

Os desejos são muitos, as vontades também; o leque de interesses é amplo e as possibilidades, inúmeras. Por que, então, não vive-las uma a uma, experimentando o prazer único que cada uma proporciona em sua realização? Por que, ao invés de buscar alegremente o calor produzido pela fogueira que ilumina a noite escura, importar-se e ocupar-se apenas da tarefa de carregar a madeira?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A TORRE: uma faxina necessária



Creio ser impossível olhar com absoluta indiferença para essa foto. O indivíduo, decapitado, aguarda, até que tranquilamente, enquanto sua cabeça é literalmente agitada dentro da máquina de lavar roupas. Seu rosto, num ricto de dor e desespero, deixa claro que, ainda que o corpo não demonstre, o que vai pela sua cabeça é perturbador e, sobretudo, que o processo de higienização não é dos mais confortáveis.
Entre outras possibilidades associativas, essa foto, a TORRE, Arcano XVI do Tarot é a que mais se destaca.
Basta olharmos para a maioria das interpretações artísticas desse Arcano para vermos que o raio divino, o relâmpago da consciência, atinge o topo da torre. E, quase sempre, há uma coroa encimando essa construção que se despedaça, do alto, em consequência de um evento alheio ao seu controle ou à sua vontade. Afinal, quem controla os desígnios divinos?
Se fizermos um paralelo entre a figura humana e a TORRE, veremos que sua posição também é ereta, altiva. Destaca-se da paisagem que a cerca e elevando-se, o mais possível em direção aos céus, à morada dos deuses, ao Olimpo, o Éden onde gostaríamos de viver, semideuses que acreditamos ser. Em nossa volúpia pelo poder, em nossa ambição em sermos donos e senhores de tudo e de todos e, até, dos nossos destinos, construímos um ego de desmedidas proporções. Tão fascinados estamos com nossa estatura e o quanto ela nos permitirá alcançar, que chegamos a nos esquecer da base, do terreno em que nos apoiamos, da fragilidade dos elementos em que nos apoiamos para nos destacarmos dos demais.


Como o Dr. Frankenstein, do romance da Mary Shelley, não sabemos, ao final, o que fazer com o Monstro que criamos, remendando pedaços nem sempre compatíveis e, muito menos, harmoniosos. Nos recriamos, numa reles e ridícula imitação do Criador, nos acreditando os novos Prometeus, capazes de insuflarmos uma pretensa nova vida em nossos pequenos corpos.
Nada permanece inteiro se não for construído com cuidado, técnica, atenção ao detalhe e, sobretudo, seguindo um plano bem desenhado e usando material de primeira. Lembram-se da história dos 3 Porquinhos e o Lobo Mau? O único que não teve sua casa destruída pelo sopro do lobo foi aquele que a erigiu com tijolos, madeira, argamassa e telhas. Ou seja, ele não optou por um simples e eventual abrigo, feito às pressas e descuidadamente, como os seus irmãos, que pensaram apenas no imediato, na situação presente. Ele, Prático (esse era o seu nome, e não é por acaso...), sabia que o lobo era mais forte, mais ladino, mais perigoso e que não seria uma única vez que esse embate entre eles se travaria. Construiu, conscientemente, pensando no futuro, na durabilidade, na relação custo-benefício que isso lhe acarretaria a longo prazo. E, portanto, foi o único que venceu as ameaças que, tão inteligentemente, soube enfrentar. 


A TORRE sendo destruída por um fenômeno que vem do mais alto, bem mais alto do que ela, simboliza um momento de verdadeira libertação dos indivíduos que estão emparedados por aquelas paredes, alheios à realidade que os cerca, protegidos apenas por suas fantasiosas pretensões, sua elevada autoestima, seu desconforto em reconhecer-se parte daquilo do qual ele tenta se isolar. A catástrofe o derruba do alto de seu castelo de areia e o obriga a colocar os pés no chão, na realidade.
Adeus delírios de grandeza. Adeus complexo de superioridade. Adeus Monstro feito de retalhos e sem alma. É chegado o momento de se olhar de frente para um espelho e perguntar-se "Quem sou eu, de verdade?"
Difícil? Doloroso? Assustador? Com certeza. Mas necessário. Deve ser o mesmo que a roupa suja, com traços de perfumes caríssimos, restos de alimentos sofisticados, dos elogios recebidos, das grifes que representam o status de seu dono e o suor de festas intermináveis pensaria se possível isso fosse, ao ser colocadas numa máquina de lavar. Mas de lá elas sairão renovadas, livres de todos esses pretensos atributos, novamente colocadas diante das funções que melhor exercem e onde se reconhecem: uma camisa é só uma camisa, e por aí adiante.



Esse homem da foto aguarda essa mesma faxina. 
 Aguarda ter todos os andaimes e muletas que sustentam um indivíduo que não é mais ele, mas um ser irreconhecível, uma verdadeira colagem de falsos atributos e de absurdas fantasias, serem desconstruidos, lavados num processo de limpeza forçado, ao qual talvez tenha se recusado submeter. Muita agitação, muita trituração, muito sabão e água limpa serão necessários para remover as manchas do seu conhecido complexo de inferioridade, do medo que lhe descubram a verdadeira estatura, da sua eterna busca em "ter" porque não sabe "ser.
Mas ao final do processo, ele, "novo em folha", estará pronto para recomeçar. Às vezes do zero. Às vezes, com alguma sabedoria adquirida. Mas, com certeza, irá reerguer-se, aos poucos, procurando evitar repetir os mesmos erros. 

Que desta vez o faça sem querer surpreender, agradar ou humilhar o vizinho, mas para que sua nova estrutura abrigue um indivíduo melhorado: ele mesmo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

TEMPERANÇA: o Arcano XIV e o conceito de Frugalidade



Estava folheando um livro quando essa imagem surreal capturou de tal forma minha atenção que, depois de observá-la, decidi usar como um exemplo de similaridade imagética ao conceito do Arcano XIV do Tarot. 

Vivemos num sistema em que é muito difícil pensar na ideia de que menos é mais. Não apenas dentro de um mero conceito estilístico, decorativo, supostamente "fashion". Estamos cercados de tantos atrativos, de tantas tentações, de um sem-número de apelos e possibilidades, vivendo dentro de um grande, global shopping center, que fica muito complicado, senão impossível, nos contentarmos com apenas e tão somente o essencial.
Somos vitimas de uma febre consumista que nos leva a acreditar que nunca seremos felizes enquanto não abarrotarmos muitos cabides e gavetas com peças de vestuário. Óculos, sapatos, bolsas, precisamos de muitos, para acompanharmos a moda do dia e combinarmos com nossos diferentes estados de humor. Vidros e mais vidros de perfumes, potes de cremes para todas as partes do corpo, shampoos feitos de óleos, sementes e ervas exóticas em combinações só imaginadas por bruxas de histórias infantis, poluem nossos banheiros. Enquanto isso, não sabemos mais onde guardar ou descartar TVs, telefones, tocadores de DVDs e relógios que, há poucos meses, eram a última e definitiva revolução da eletrônica.


 Gostamos de excessos. Colecionamos coisas, pessoas, contatos, objetos, na vã suposição que eles um dia nos resgatarão de alguma terrível situação.
Daí então, olho para essa fantasia fotográfica, ou ela olha, debochando, para mim. Só sei que aquilo que a mim ela representa é exatamente o estilo de vida que eu quero ter: descomplicado.
Na angelical presença que estampa a carta da TEMPERANÇA, Arcano XIV do tarot, o conceito a ser compreendido é exatamente esse: a moderação. A alegria encontrada nos pequenos prazeres da vida. 

É saber diferenciar o que realmente necessitamos daquilo que apenas queremos ter para nos exibir, nos sentir poderosos, nos distrairmos, como risíveis substitutos de outras frustrações. Isso feito e compreendido, é necessário que nos ajustemos às nossas condições reais, evitando o entusiasmo, impulsos e as paixões de última hora, e privilegiando o autocontrole. Nem oito, nem oitocentos, sem privar-se daquilo que nos é fundamental, mas também sem cometer desatinos.

Temperar é, antes de mais nada, saber dosar. Um pouco disso, combinando com um pouco mais daquilo, misturado àquilo outro, sem exageros. Ou seja, ser sóbrio e equilibrado em tudo na vida. Parece difícil, não é mesmo? E é realmente. Por isso mesmo, quando o Waite encomendou uma carta que representasse a busca do equilíbrio, físico, mental, espiritual e emocional, sua ilustradora, a artista Pamela Smith usou exclusivamente a figura de um anjo. A imagem de alguém que não necessita de praticamente nada para existir... e bem!


 O anagrama da palavra TEMPERANÇA é PARCAMENTE, que significa "muito pouco, quase nada". Isso, evidentemente não é a pregação da miséria e o fim da evolução dos produtos ou do comércio dos mesmos. Nem é um descabido manifesto pelo retorno às cavernas, ou a uma existência de absoluto ascetismo, e o completo abandono de tudo aquilo que nos facilita a vida. Isso também seria ausência de sensatez, de lógica e de saber conciliar as coisas, ou seja, ausência dessa mesma TEMPERANÇA.
Frugalidade não é abstinência ou jejum, mas certamente é o oposto de comer uma caixa de bombons, acompanhados de um litro de refrigerante. É não cometer excessos sem, entretanto, deixar de sentir-se bem, satisfeito e feliz.


Talvez seja exatamente essa ideia, que me parece tão explicita na imagem que motivou este comentário. Repare que a mulher que possui tudo o que necessita: o alimento que a nutre, as vestes que a cobrem, o abrigo para descansar em paz. Ou seja, os necessários recursos e o potencial para se desenvolver, a liberdade de desfrutar seus espaços e domínios, o contentamento e a alegria de bastar-se e ao mesmo tempo comungar com todo o mais que a cerca, além disso, sentir-se protegida por uma energia, como numa redoma, invisível aos olhos, mas de elevado poder e efeito. Há, sem dúvida, um entendimento e uma reciprocidade entre ela e o Universo.
Isso, em essência, é sentir-se ajustado. Isso, é TEMPERANÇA.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O LOUCO: o salto no desconhecido


Um homem flutua, segurando balões de gás, sobre as ruas de uma metrópole. Fantástica imagem! A cidade, em seu desenho retilíneo e preciso, na impessoalidade de suas formas, no movimento constante dos carros que trafegam suas ruas e avenidas transportando seus habitantes, na claridade ainda acinzentada do amanhecer (ou será anoitecer?), na altura ciclópica de seus arranha-céus, parece alheia ao homem que flutua por seu céu.
Quem é, o que faz e pensa e para onde vai esse homem, chapéu na cabeça e maleta na mão? Um anjo disfarçado de executivo? Um inventor maluco? Um novo super-herói? O que motiva alguém a lançar-se nas alturas, confiando apenas numa meia dúzia de balões e ao sabor dos ventos? Quem é esse ... LOUCO?
Sem número, zero ou 22, a carta do LOUCO é aquela que simboliza o Tudo e o Nada a um só tempo. Por paradoxal que pareça, ela é todas as outras 21 cartas dos Arcanos Maiores, e nenhuma delas também. É a sabedoria contida em cada uma das lâminas do tarot, adquiridas através da experiência em viver o significado dos seus símbolos, e, no mesmo momento, ela é a tolice de quem ainda vive desconhecendo essas virtudes e sua importância para a própria evolução. 


Nas cartas encomendadas pelo ocultista Waite à artista plástica Pamela Smith, essa figura é de um jovem dinâmico, de largos passos, vestido com uma túnica verde florida (a lembrar o Homem Verde, comum em outras mitologias), um chapéu decorado com uma pena que aponta para o céu, e, finalizando, um bastão que prende uma pequena trouxa sobre um ombro e uma rosa branca numa das mãos. O dia ensolarado e a claridade do ar das montanhas, tão afastado de onde os homens vivem, atraem seu olhar para o alto, e, ignorante do fato de que está a um ou dois passos de um precipício, caminha destemido para ele. Como companhia, apenas um cão, que percebendo o que está para acontecer, procura evitar que ele salte no vazio, mordendo-lhe o calcanhar.  Essa é a típica figura da espontaneidade, da despreocupação, da extravagância, da coragem e destemor que só os muito loucos ou os muito sábios possuem. Há que acreditar-se muito e ter uma inabalável fé na proteção divina para intentar algo, aparentemente, tão absurdamente irracional. Mas é exatamente isso que o LOUCO do tarot está por fazer: arriscar-se. Dar um salto mortal, sem rede de proteção.

O LOUCO, na taromancia, sempre foi visto como o rebelde, aquele que se sente desajustado diante de uma situação estabelecida; é a pessoa ou o evento que fogem à norma, ou o ingênuo, o inocente, o inexperiente que ainda tem muito a aprender. Ele costuma ser entendido como alguém despreocupado, sem planos para o futuro, sem compromissos com o passado, sem preocupações com o presente. Alguns lhe enaltecem a personalidade, forte, única, pois confia em si e acredita em tudo o que faz. Outros o vêem como algo misterioso, que não consegue ser explicado racionalmente e que, portanto, ameaça a estabilidade daquilo tudo que consideramos normal, apropriado, natural, evidente, seguro, confortável, fácil, óbvio, legal, verdadeiro, estabelecido, conveniente, etc.


Comparando as duas imagens, o que ressalta é que ambos estão prontos para "caminhar no ar", dar um salto para uma nova fase, um novo tempo, um outro lugar, uma nova forma de pensar, uma nova etapa da vida. A possibilidade de aventura contida nesse gesto, nesse passo rumo ao abismo, nesse flutuar por sobre o mundo como o vemos e compreendemos, é a grande qualidade desse Arcano. Sua mensagem é ser autêntico e, para tanto, não temer infringir convenções, abandonar velhos métodos,

deixar de lado o medo do inesperado, aceitar as surpresas e permitir-se começar algo novo (mesmo que seja novo apenas para si mesmo), que ainda não tenha sido testado.
Se não houver uma dose de infantil ingenuidade (os balões de gás), de pureza de alma e intenções (a rosa branca), de uma sensação de absoluta liberdade (voar pelo céu, estar no alto das montanhas), de não conformismo (a extravagância no voar sobre a cidade, de saltar por sobre o abismo), de busca de novas experiências (a mala e a trouxa são pequenas e muito pouco podem levar daquilo que já conseguiu), se nada disso houver, esse homem ainda não está preparado para se iniciado nos mistérios da vida, que é exatamente o que as demais 22 cartas do tarot revelam. 


O LOUCO é aquele que está aberto a tudo o que o futuro oferece, sem preconceito, sem preocupações, pronto a envolver-se com o inesperado, sentindo-se impelido a lançar-se a grande aventura que é Viver por um chamado de fé e absoluta confiança no Universo, crente que tudo vai dar certo.
E lá segue o homem que voa segurando-se aos balões, flanando pela brisa que envolve a cidade, espírito livre, aproveitando cada inesperada oportunidade, buscando a si mesmo e encontrando-se em cada novo aprendizado, em cada nova experiência.

terça-feira, 29 de abril de 2014

A JUSTIÇA: uma questão de equilíbrio.


Quando pensamos em JUSTIÇA é quase impossível não a associarmos à ideia de crime e castigo, erro e punição, causa e efeito, aqui se faz e aqui se paga. E ela é tudo isso, e muito mais. É, sobretudo, a ideia de equilibrarmos os prós e os contras; de vermos, isentos de tendências, os dois lados de uma mesma questão; de investigarmos o que há por trás das ações cometidas e que as justifiquem. A Justiça, chamada “dos homens”, essa que tem tribunais, acusadores, defensores, juízes e testemunhas, é a física. Existe uma outra, espiritual, que faz parte da nossa alma, que regula as nossas atividades psíquicas, que nos equilibra interiormente, e é essa que, mais frequentemente, o Arcano VIII do tarot, simboliza.

Agora, um pouco da história, da lenda, do mito dessa senhora, a JUSTIÇA:


Métis engravidou de Zeus, mas o Oráculo predisse que essa criança iria ser mais poderosa do que ele. Para evitar esse confronto, ele Zeus engoliu Métis, fazendo com que a gestação ocorresse dentro dele, mais especificamente em sua cabeça. Chegado o momento do parto e sentindo fortíssimas dores na fronte, ele pede a Hefestos (Vulcano), o ferreiro divino, que lhe abra a fronte com um machado. Isso feito, de dentro da cabeça de Zeus surge adulta, altiva e armada, Palas Athena (Minerva). A jovem pede ao pai que lhe permita permanecer virgem (palas) para sempre, pois só assim, longe das paixões, não se corromperia ou deixar-se-ia seduzir e perder a sua lógica, a sua razão. Essa deusa é um símbolo do combate pelo amor à verdade. 
Athena (Minerva) era irmã do solar Apolo, deus da harmonia em cujo templo, lia-se à entrada: “Conhece-te a ti mesmo”. O que isso significa? Que é necessário que reconheçamos nossas verdades, saibamos quem somos realmente e coloquemos às claras as nossas verdadeiras intenções. Devemos nos desmascarar frente a nós mesmos, não tentando encobrir nossos erros e defeitos, ou nossa índole, sob espessa camada de desculpas e justificativas vãs. 

Palas Athena fazia-se acompanhar por uma coruja, ave noturna cuja cabeça gira 360º e os olhos devassam a mais densa escuridão garantindo que todos os detalhes, não importa o quão escondidos ou remotos possam estar, serão vistos, coletados e analisados. Um escudo, com a cabeça da Medusa incrustada, fazia parte do figurino da deusa. Aí também reside uma mensagem pois, diante da Medusa, todos ficavam petrificados. Isso significa que somente aqueles cujas verdadeiras intenções não são motivadas por paixões, tendências ou teimosia, não ficarão paralisados de medo e horror. E, como se todo esse aparato não bastasse, Niké, a deusa alada da vitória, era sua companheira constante, como forma de reafirmar que a verdade sempre triunfa.

Quando a carta da JUSTIÇA surge numa leitura de tarot pode significar que o sujeito deve parar, dar um tempo e analisar friamente a situação antes de prosseguir; situações legais (jurídicas) podem acontecer na vida do consulente; leia e estude detalhadamente documentos, propostas e compromissos que tiver que assinar, dando seu parecer; tempo de ser honesto, responsável e justo; buscar seu centro físico, emocional e espiritual; prudência; procurar trilhar o caminho do meio, afastando-se das extremidades, dos 8 ou 800, dos excessos; é chegada a hora de colher o que foi semeado; justiça divina; tomada de consciência, agir embasado pela consciência; sabedoria; fidelidade no amor e nas amizades.

Estejamos atentos ao fato de que, não importa quem vença a batalha, é ele quem escreverá a história. Toda luta, toda guerra, toda batalha, inclusive as legais são, ao mesmo tempo, uma vitória e um massacre, dependendo apenas do ponto de vista de quem dela participa, de quem a vence e de quem a perde. A JUSTIÇA pode existir à luz de diferentes pontos de vista . O que nos parece injusto num determinado momento e sob uma certa ótica, pode ser assumido como algo bastante justo, com o passar do tempo. O que a carta da JUSTIÇA, no tarot, nos pede é que nos examinemos de forma lógica e bastante objetiva, que encontremos, em nós, a verdade e nada mais que a verdade, mesmo que a isso esteja condicionado o fato de termos de reconhecer que erramos e devemos corrigir o que fizemos.
Devemos assumir as nossas responsabilidades, perdoarmos as nossas fraquezas frente ao nosso próprio tribunal, e nos disciplinarmos em busca de uma maior harmonia, uma consolidação do nosso equilíbrio mental e espiritual. Que nossas ações e julgamentos sejam sempre feitos com sabedoria e amor, visando a harmonia e a cooperação.



Fica, como tema para uma possível meditação, um pequeno conto sufi:
 

Certo dia, um juiz perguntou ao mestre Nasrudin:- Mestre, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?

- O dinheiro, é claro - respondeu Nasrudin, sem pestanejar.

- O quê! - disse o juiz - Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Podemos encontrá-lo por aí sem grandes dificuldades. Estou sinceramente espantado com a sua opção, Nasrudin. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!

- Meritíssimo, cada um deseja aquilo que mais lhe falta! - respondeu tranqüilamente o mestre Nasrudin.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

ÁS DE OUROS: concretizar idéias



A própria ideia de riqueza é precisamente o significado do ÁS DE OUROS. Ele é o símbolo de todos os aspectos positivos dos aspectos materiais, que estão presentes em nossa vida e na própria energia do Universo. Cada novo dia é um presente da Criação. 


Esta carta representa a semente da prosperidade e dos ganhos materiais – talvez ainda não totalmente manifestos ou percebidos: é um Ás, um começo, um potencial. Um novo momento em que os seus sonhos estão prontos para se realizarem. A compreensão da necessidade de ser prático e entender a dinâmica do mundo natural. Estar tão desenvolvido espiritualmente que lhe permita reconhecer os milagres que a terra nos oferece, constante e abundantemente.



O ÁS DE OUROS indica riqueza e felicidade. A riqueza, todavia, não necessariamente precisa ter um valor monetário, econômico. Todos sabemos que os maiores presentes que a Vida nos oferece não podem ser comprados. Ainda assim, se tudo o que um dia lhe foi importante (vida amorosa ou estabilidade financeira) lhe for roubado, cortado, suprimido, arrasado, e você ainda tiver esperanças em voltar a gozar daqueles mesmos benefícios, prazeres, comodidades e alegrias, o aparecimento de um ÁS DE OUROS é uma promessa de que o que você deseja está a caminho. Pode levar algum tempo, mas vai acontecer, desde que você alimente essa possibilidade, essa semente com a sua dedicação, positivismo, cuidados, proteção, interesse, e trabalho.




Numa leitura de tarot, quase sempre o ÁS DE OUROS surge para indicar prosperidade, fertilidade, generosidade, os frutos do trabalho, prazeres materiais, novas oportunidades de negócios, uma descarga de energia voltada à criação de oportunidades materiais, habilidades manuais, visões criativas ou seja a materialização de ideias, ambição, trabalho, segurança, sucesso, ciência, produtividade, prazer sexual, aquisições de bens móveis e imóveis, presentes, boa sorte, possibilidade de ganhar no jogo (cuidado…), herança, documento, ótima saúde ou a sua recuperação, estabilidade, conforto, prosperidade, satisfação, reconhecimento e sucesso, prêmio merecido através do trabalho intenso, ajuda e dinheiro inesperados, promoção, reprodução e benefícios... ufa! Parece mais do que o suficiente, não é? 
Mas ainda tem mais umas coisinhas tipo o nascimento de um filho, um casamento feliz, a constituição de uma nova família, a mudança para uma nova casa, bairro, cidade, estado ou país, um novo emprego, uma nova posição dentro da empresa, um novo padrão de vida, integridade.




Assuma o trabalho necessário para desenvolvê-la e concretizá-la e realize-o com muito prazer e confiança pois o ÁS DE OUROS pode também indicar que estamos precisando incluir algo novo em nossas vidas. Ao invés de deixarmos as coisas continuarem como estão, esperando que elas melhorem no decorrer do tempo ou que se resolvam por si próprias, essa carta sugere que acrescentemos um novo tempero, um novo ingrediente à mistura. Necessita de ação, e ação física! O que será que poderia ser?

Talvez ingressar num curso de especialização, fazer umas aulas de dança de salão, aprender botânica ou jardinagem, ter aulas particulares de computação gráfica e acabar virando um expert no Photoshop. Ingressar num novo curso de línguas, fazer umas aulas de filosofia, comprar alguns livros novos (e lê-los!). Talvez, mais corriqueiramente, seja o momento certo para rearranjar a mobília, dando uma repaginada no visual da casa; ou fazer uma boa faxina nos armários e doar tudo aquilo que você tem ali acumulado e sem uso. Tirar o velho e abrir espaço para o novo. Isso não é só regra elementar de Feng Shui, mas é agir concretamente no desbloqueio do que possa estar acumulado, estratificado, e obsoleto para o desenvolvimento de novas possibilidades. É exatamente o que esta carta nos diz: você precisa preparar o terreno para que essa semente germine de forma saudável e a seu tempo. Se há algum bloqueio se interpondo entre as suas necessidades, os seus sonhos, é tempo de arregaçar as mangas e tirar esse tronco, essas pedras do caminho.


Finalmente, se há uma mensagem embutida quando um ÁS DE OUROS se apresenta, acredito possa ser a seguinte: use seus talentos, sua energia, suas habilidades, sua vontade para vivenciar as oportunidades na sua vida. Não importa se você está mais preocupado com assuntos materiais ou ideais mais filosóficos: a chave para a conquista de todos os seus tesouros esteve, está e estará sempre junto a você. Seja autoconfiante e aproveite esse imenso presente que o Universo lhe oferece!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

CAVALEIRO DE ESPADAS: Salve Jorge!


 É muito fácil associarmos o CAVALEIRO DE ESPADAS, carta da Corte do tarot, à figura daquele aparentemente frágil ser humano que em Pequim, no dia 5 de junho de 1989, em meio aos maiores confrontos e massacres na Praça da Paz Celestial (bom nome para um campo de guerra, não é mesmo? Desculpem-me a ironia...) enfrentou desarmado de qualquer coisa a não ser da firme convicção em um ideal , e fez parar, um comboio de tanques de guerra. Seus motivos? Uma questão de ideologia. Sua personalidade? A de um combativo defensor de suas verdades pessoais. Seu caráter? A de defensor dos fracos, corrigindo as injustiças que oprimem e que possam obstruir a causa que ele acredita e lidera.

Cá estamos, quase no final de março, no dia dedicado a São Jorge, e ei-lo que surge: o nosso bravo, indômito, corajoso, hábil, esperto, ligeiro, analítico, argumentativo, intempestivo CAVALEIRO DE ESPADAS, protegido por sua brilhante armadura, singrando os ares em seu corcel branco, provocando ventanias e furacões em sua passagem. Não seria para menos, pois o elemento deste Arcano Menor é o Ar (Espadas = Ar =Mental) e, como todos os Cavaleiros do Tarot, ele é a forma mais exaltada do elemento que representa. Numa escala entre sopro, brisa, vento e ventania, ele fica mesmo é com os tornados e os furacões, incontrolável e arrasador em sua passagem.

Todos nós, se não o somos, temos parentes, amigos, conhecidos, ou mesmo cruzamos diariamente com pessoas que são fiéis representantes dos muitos aspectos que essa carta simboliza. São sempre pessoas muito analíticas, fiéis às suas crenças, ideais, filosofias e princípios, frias e calculistas em sua forma de pensar, mas de temperamento esquentado, que falam o que pensam e, por isso mesmo podem ser consideradas, por vezes, imprudentes. São excelentes estrategistas, planejando a longo prazo, habilidosos na forma de conduzirem seus interesses e defenderem suas causas. Ótimos amigos, sempre ao nosso lado evitando que soframos qualquer forma de coação e procurando resolver todos os nossos problemas. Mas como inimigos, são inigualáveis: furiosos, julgadores, dominadores, maquiavélicos, verdadeiros guerreiros prontos para derrotar a quem ou ao que se interpor entre eles e suas vontades.

Em situações bastante cotidianas os encontramos entre os executivos, os administradores, os gerentes, os que trabalham no mercado de ações, os analistas econômicos, advogados, promotores, juízes, delegados, detetives, policiais, soldados, técnicos em computação e até mesmo nos editores, ombudsman e críticos de determinadas seções dos jornais e revistas, bem como nos professores de ciências ou matemática. Enfim, em todas as profissões quando a clareza mental, a capacidade de analisar seguindo regras específicas, baseando-se em padrões básicos onde tudo deve ser “o preto no branco”, intelectualmente capaz de identificar o mal e condicionar-se em destruí-lo, se faz necessário.

Evidente podemos, aqui, também mencionar aspectos menos louváveis de tão intrépido Cavaleiro: o fanatismo, a hiperatividade, o fato de, sendo cerebral demais, perder contato com a realidade e, especialmente, com as suas emoções. Em seu descontrole, pode tornar-se um carrasco, distribuindo sentenças mortais a torto e a direito, um revolucionário sem causa, crente numa utopia barata do tipo: “ Se hay gobierno, soy contra!”, na verdade comprometido com nada e completamente errático.

O imaginário popular cultua, especialmente nas religiões afro-brasileiras e, mais especialmente ainda, na cidade do Rio de Janeiro a figura heroica de São Jorge, um cavaleiro que, de acordo com a “Lenda Dourada”, em sua busca de corrigir injustiças e defender os fracos, acabou matando um dragão que aterrorizava uma província da Líbia. Como prêmio ganhou uma grande recompensa e a mão da princesa daquele lugar em casamento e, por conseguinte, metade do reino. São Jorge, fiel aos seus princípios, deu todo o dinheiro ganho para os pobres e nada mais aceitou, seguindo seu caminho em busca de novos embates com o Mal, o qual ele identifica e destrói.

Quando essa carta surge num jogo de tarot serve para avaliarmos se realmente vale o esforço a enorme energia que muitas vezes despendemos em algo que naquele momento nos parece fundamental, imprescindível e digno de todo o nosso empenho, custe o que custar. Se está bem equacionado, analisado em cada uma de suas partes, avaliadas suas consequências e métodos (não vamos “atropelar” nada ou ninguém para conseguirmos o que queremos, não é mesmo?) que pretendemos empregar. Se não estamos encarando os fatos apenas de maneira racional, calculista, abrindo mão da emoção, da intuição. Se estamos sendo pacientes, prestando atenção a tudo o que se desenrola à nossa volta, ainda que mantendo o foco em nosso objetivo, conscientes do perigo que é ignorar ou desprezar quem nos cerca.

E, se depois de todos os aspectos terem sido perfeitamente considerados e julgados, se decidirmos por seguir adiante, com força e destemor, mantendo-nos firmes no que acreditamos, devemos lembrar que a verdadeira coragem não é a força brutal dos heróis vulgares, mas a firme opção que fazemos pela virtude e razão.

E, por via das dúvidas, podemos sempre invocar alguma ajuda externa: "Valei-nos São Jorge"!




quinta-feira, 17 de abril de 2014

4 DE OUROS: a necessidade da prática do desapego


Já ouviu crianças brincando e uma delas dizendo: "Tudo meu!"? Pois é, essa é a essência do 4 DE OUROS, uma das cartas entre os Arcanos Menores do tarot e que faz referência ao aspecto material.
A gente vivencia a energia desse arcano quando nos sentimos poderosos, imbatíveis, os donos do mundo! É quando assumimos o nosso lado Imperador em seu melhor sentido: estável, competente, seguro, estruturado. Mas também podemos estar vivendo a sua "sombra": egoísta, prepotente, fechado em si mesmo, cheio de regras e normas pessoais, inseguro e controlador.


Como em quase todas as situações da vida onde o medo de perder o controle da situação ou de ser subtraído em seus bens materiais e emocionais ocorre, pode estar acontecendo um bloqueio de energia. O apego excessivo a qualquer coisa é o grande causador dos obstáculos que impomos ao fluxo dos benefícios que estamos aptos a receber e compartir.

Ter um bom e belo carro, mas que nunca é tirado da garagem por medo de sujá-lo, sofrer algum tipo de acidente, tê-lo roubado não é precaução, mas uma forma de apego da qual, nem mesmo o dono, tira proveito. Vemos isso repetir-se de maneiras bastante corriqueiras em nosso dia a dia, por exemplo quando, mesmo podendo, não nos permitimos ir a um bom restaurante, nos vestirmos com roupas confortáveis e de qualidade, não nos prestarmos a dar atenção e tempo a um amigo ou a um projeto assistencial. E, por favor, note bem: eu escrevi acima "mesmo podendo", isto é, quando os custos desses prazeres não irão interferir ou muito menos abalar a nossa estabilidade ou segurança.



O 4 DE OUROS pode significar que estamos num momento de reavaliar a nossa relação com nossos bens materiais. Que é chegado o momento de aprendermos que dinheiro é apenas algo abstrato, uma representação das coisas que nos dão subsistência ou que proporcionam mais prazer e beleza às nossas vidas. Não é sujo, pecaminoso, vergonhoso tê-lo ou não. O que importa é a maneira como o manipulamos e o valor que nós própios lhe atribuimos. Essa é a essência desta carta.

Como sempre, o caminho do meio é a opção mais recomendada: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Adquirí-lo merecidamente e usá-lo de maneira equilibrada, sem lampejos de prodigalidade ou de sovinice, em benefício próprio e dos outros é uma forma correta de lidar com a sua energia. Gente que tem muito medo de perder (dinheiro, tempo, status, poder, o amor e a atenção alheia, etc) também não prospera, pois não está exercitando criativamente essa energia. Também, por outro lado, aquele que acha que o Mundo vai-se acabar amanhã e que portanto dilapida patrimônios, não se doa a ninguém e a nenhuma causa, não tem ideais, está fadado a um futuro bastante inóspito, pois como diz o ditado: "dinheiro não aceita desaforo".


Quando o 4 DE OUROS sai numa tiragem, dependendo da sua posição, podeservir para nos lembrar que devemos praticar o desapego. Desapegar-se não é de forma alguma renunciar a algo que nos é importante, mas não ser escravo, não ser dependente desse algo.

Desapegar-se é reconhecer a impermanência de tudo o que vive. Nada é eterno e, ao contrário do que os faraós do Antigo Egito acreditavam, não adianta acumular pensando numa vida futura, pós-morte. Nada do que é material nos acompanhará quando este ciclo de existência se findar. 
Portanto, aproveitar e cuidar bem do que nos é materialmente aprazível é uma coisa. Ser doentiamente dependente desses mesmos bens, hipervalorizando a sua presença em nossas vidas, é outra, bem diferente.


Quando o 4 DE OUROS aparece numa leitura de tarot, o melhor conselho seria reavaliar a importância das posses, dos bens materiais em nossa vida e observar se o apego exagerado a um objeto, pessoa ou situação não seria decorrente de uma baixa-estima longamente cultivada. Devemos lembrar que o naipe de Ouros, ao qual essa carta pertence, diz respeito à matéria, ou seja, ao mundo físico, real, palpável e que para dele bem desfrutarmos não podemos nunca deixar a balança pender para um só lado. Há que se buscar a harmonia do Material com os outros 3 aspectos da nossa existência: o Racional, o Emocional e o Espiritual. 
Privilegiar um deles em detrimento dos demais é romper o equilíbrio que nos permite viver em paz, de maneira plena em comunhão com os demais seres que habitam este planeta, usufruindo do bem maior que possuímos: a própria Vida.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Usem Filtro Solar: conselhos para todos os ciclos da vida

  “Conselho (assim como a juventude) a ser provavelmente desperdiçado pelos os jovens” é o título de uma coluna publicada no dia 1º de Junho de 1997, no jornal norte-americano Chicago Tribune, pela jornalista Mary Schmich e que até hoje é um verdadeiro “hino” à consciência pessoal que cada um de nós deveria ter. 

Usando de muito bom humor e de uma metalinguagem, a autora sempre afirmou que, se algum dia fosse convidada a ser oradora ou paraninfo de uma turma de jovens estudantes, essas seriam as palavras que gostaria de dizer:

  Major05 (7)   
 “Dentro de cada indivíduo adulto esconde-se um orador de turma, um paraninfo, morrendo de vontade de se manifestar; algum tipo de “eu-sei-tudo” disposto a dar palpites na vida de jovens que preferiam estar, naquele momento, andando de patins.      Muitos de nós, aliás, nunca seremos convidados a semear nossas palavras de sabedoria em meio a um público de formandos, mas não há nenhuma razão que nos impeça de nos distrairmos escrevendo um “Guia para a Vida dos Graduandos”.
     “Eu encorajo qualquer um, acima de 26 anos, a experimentar fazer isso e agradeço a todos a gentileza de também permitirem que eu o faça. Portanto…

     Senhoras e Senhores, formandos da turma de 1997:

Usem filtro solar 

      
      Se eu pudesse dar um conselho em relação ao futuro, eu diria:
     ”Usem filtro solar”.
     O uso em longo prazo do filtro solar, foi cientificamente provado. Os demais conselhos que dou baseiam-se unicamente em minha própria experiência. 


   Major03 (7)   Eu lhe darei esse conselho:

      Desfrute do poder e da beleza da sua juventude.

      Oh, esqueça… Você só vai compreender o poder e a beleza quando já tiverem desaparecido. Mas acredite em mim. Dentro de vinte anos você olhará suas fotos e compreenderá de um jeito que você não pode compreender agora quantas possibilidades se abriram para você e o quão fabuloso você era… 
Você não é tão gordo quanto você imagina. 

   



     Swords09 (7)Não se preocupe com o futuro.
     Ou se preocupe, mas saiba que se preocupar é tão eficaz quanto tentar resolver uma equação de álgebra mascando chiclete. É quase certo que os problemas que realmente têm importância em sua vida, são aqueles que nunca passaram pela sua mente, tipo aqueles que tomam conta da sua mente às 4 horas da tarde de uma terça-feira ociosa.

     Todos os dias faça alguma coisa que te assuste.  Cante.





Cups04 (7)

     Não trate os sentimentos alheios de forma irresponsável.

     Não tolere aqueles que agem de forma irresponsável em relação aos seus sentimentos.


     Relaxe.

   



  
Wands05 (7)    Não perca tempo com inveja. Às vezes você ganha, às vezes você perde. A corrida é longa, e no final, tem que contar só com você. 

     Lembre-se dos elogios que você recebe. Esqueça dos insultos.
     (Se você conseguir fazer isso, me diga como…)

     Guarde suas cartas de amor.
     Jogue fora seus velhos extratos bancários.

     Estique-se. 




    Wands01 (7)   
        Não tenha sentimento de culpa por não saber o que você quer fazer da sua vida.
        As pessoas mais interessantes que eu conheço não tinham, aos 22 anos, nenhuma idéia do que fariam na vida. Algumas das pessoas interessantes de 40 anos que eu conheço ainda não sabem.


       Tome bastante cálcio. Seja gentil com seus joelhos.
       Você sentirá falta deles quando não funcionarem mais.




    Coins02 (7)
        Talvez você se case, talvez não. Talvez tenha filhos, talvez não.  
        Talvez você se divorcie aos 40.
        Talvez você dance uma valsinha quando fizer 75 anos de casamento.

        O que você fizer, não se orgulhe, nem se critique demais.
        Todas as suas escolhas tem 50% de chance de dar certo. Como as escolhas de todos os demais.


   


Cups03 (7)   
      Curta seu corpo da maneira que puder.
      Use-o de todas as formas que puder.
      Não tenha medo dele ou do que as outras pessoas pensam dele.
      Ele é o maior instrumento que você possuirá.
      Dance. Mesmo que o único lugar que você tenha para dançar seja sua sala de estar.
      Leia todas as indicações, mesmo que você não as siga.  Não leia revistas de beleza. Elas só vão fazer você se sentir feio.




 
   Coins10 (7)      Saiba entender seus pais.
         Você não sabe a falta que você vai sentir deles quando eles forem embora pra valer.
         Seja agradável com seus irmãos. Eles são seu melhor vínculo com o passado e aqueles que, no futuro, provavelmente nunca deixarão você na mão.
         Entenda que os amigos vão e vem, mas que há um punhado deles, preciosos, que você tem que guardar com muito carinho.
        Trabalhe duro para transpor os obstáculos geográficos e os obstáculos da vida, porque quanto mais você envelhece, tanto mais precisa das pessoas que te conheceram quando você era jovem.



        



        More em New York  pelo menos uma Swords06 (7)vez.

        Mas mude-se antes que ela te transforme em uma pessoa dura.

        More no Norte da Califórnia pelo menos uma vez.
        Mas mude-se antes de tornar-se uma pessoa muito mole.

        Viaje.




    
 
Cups07 (7)   
     Aceite algumas verdades eternas:

     Os preços vão subir,
     os políticos são mulherengos e
     você também vai envelhecer. 
      E quando você envelhecer, você fantasiará que quando você era jovem:
     os preços eram razoáveis,
     os políticos eram nobres e
     as crianças respeitavam os mais velhos.



   
Coins05 (7)   
     Respeite as pessoas mais velhas.
     Não espere apoio de ninguém.
    Talvez você tenha um fundo de garantia.
     Talvez você tenha um cônjuge rico.
     Mas você nunca sabe quando um ou outro pode desaparecer.

     Não mexa muito em seu cabelo.
     Senão, quando tiver quarenta anos, vai ficar com a aparência de oitenta e cinco.




  

      Cups06 (7) Tenha cuidado com as pessoas que lhe dão conselhos.
 
        Mas seja paciente com elas. 
        Conselho é uma forma de nostalgia.
        Dar conselho é uma forma de resgatar o passado da lata do lixo, limpá-lo, esconder as partes feias e reciclá-lo por um preço muito maior do que realmente vale.

         Mas acredite em mim, quando eu falo do filtro solar.


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Mary Schmich, 1997

Vídeo original desenvolvido pela DB9DDB, sem legendas e com a interpretação e locução em português de Edu Lima. Música e letra: Baz Luhrmann.
 
Considero esse texto uma grande oportunidade para reflexão e é exatamente por isso que resolvi “trabalhar” um pouquinho encima dele, associando algumas passagens às cartas do Tarot.

 Evidentemente não pretendo ser esse exercício uma forma definitiva de correlações imagéticas das cartas do tarot com o texto, até mesmo porque, entre fazê-lo e postá-lo, dezenas de outras possibilidades cruzaram minha mente.
  
 Aliás, imaginar é a essência do ato interpretativo do Tarot.