Mostrando postagens com marcador ar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de maio de 2014

8 DE ESPADAS: Enrolado


Encontro um amigo e, quando pergunto como vai, ele responde com um "Enrolado, sabe como é...". Uma amiga me liga desmarcando o almoço combinado para hoje porque está "toda enrolada, com hóspedes em casa, filhos precisando de ajuda para as tarefas escolares, sem cabeça pra nada...". Um amigo de muito tempo, recém separado, liga para contar que está com a situação amorosa novamente "enrolada". Daí então me deparo com a foto acima e começo a rir, sozinho, substituindo mentalmente a figura atada ao novelo pelos meus interlocutores.

Quantas e quantas vezes vivemos situações em que parecemos estar completamente envolvidos por dificuldades em optar, contradições, pequenas ou grandes mentiras, acúmulo de assuntos pendentes, cobranças feitas por esposa, filhos, funcionários, chefes, amigos, clientes, etc? Creio que todos, em algum momento, tenham vivido esse sentimento de dificuldade em encontrar soluções razoáveis para os desafios que enfrentavam. 


O 8 DE ESPADAS é um bom retrato da expressão "estar enrolado", que bem define o grau de envolvimento em que a "vítima" se acha na situação, da maneira como ela se percebe de mãos e pés atados (e isso é outra expressão com o mesmo significado), impedida de retirar a venda da ignorância e da duvida, que a impedem de ver claramente o problema como um todo e suas partes constituintes. Assim sendo, tateia, às escuras, impedida de evoluir e agir. Sem ação, devido às cordas que lhe prendem os braços e as mãos, não há como desembaraçar-se e caminhar para um resultado satisfatório.

Enrolado está o rapaz que vai-se comprometendo cada vez mais com a namorada, fazendo-lhe promessas e, ao mesmo tempo, mortificado em ter que abandonar a tal liberdade da vida de solteiro. Enrolada está a pessoa que inventa mentiras "inocentes" para justificar erros que, ela bem sabe, estão sendo descobertos. Enrolado está aquele que comprometeu seu salário, economias e bom-senso gastando mais do que tinha condições, apenas contando com um golpe de sorte, um milagre que o salve. Enrolados nos sentimos, todos, quando perdemos a coragem, quando criamos fantasias mórbidas que nos fazem frágeis e temerosos de tudo e de todos, petrificados de terror diante da vida.


O melhor de tudo é reconhecer que essa situação não nos foi imposta, mas criadas por nós mesmos. Portanto o fio da meada que nos enrola está em nossas mãos, ou melhor, em nosso plano racional. Basta que deixemos o pânico de lado, olhemos a situação criteriosamente, da maneira mais objetiva e analítica possível, recuperemos a razão e o equilíbrio, e reorganizemos estratégias e ações efetivas que nos libertem da teia de enganos, fantasias e confusões que criamos.
Assim, "desenrolados", poderemos corajosamente enfrentar e resolver, com precisão, as pendências e evoluirmos, em busca de melhores dias.


(Obs.: Em algumas regiões deste país, o termo "agarrado" traduz perfeitamente o "enrolado". É a mesma coisa: estar preso dentro de uma situação provocada, na maioria das vezes, por si mesmo.)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

CAVALEIRO DE ESPADAS: Salve Jorge!


 É muito fácil associarmos o CAVALEIRO DE ESPADAS, carta da Corte do tarot, à figura daquele aparentemente frágil ser humano que em Pequim, no dia 5 de junho de 1989, em meio aos maiores confrontos e massacres na Praça da Paz Celestial (bom nome para um campo de guerra, não é mesmo? Desculpem-me a ironia...) enfrentou desarmado de qualquer coisa a não ser da firme convicção em um ideal , e fez parar, um comboio de tanques de guerra. Seus motivos? Uma questão de ideologia. Sua personalidade? A de um combativo defensor de suas verdades pessoais. Seu caráter? A de defensor dos fracos, corrigindo as injustiças que oprimem e que possam obstruir a causa que ele acredita e lidera.

Cá estamos, quase no final de março, no dia dedicado a São Jorge, e ei-lo que surge: o nosso bravo, indômito, corajoso, hábil, esperto, ligeiro, analítico, argumentativo, intempestivo CAVALEIRO DE ESPADAS, protegido por sua brilhante armadura, singrando os ares em seu corcel branco, provocando ventanias e furacões em sua passagem. Não seria para menos, pois o elemento deste Arcano Menor é o Ar (Espadas = Ar =Mental) e, como todos os Cavaleiros do Tarot, ele é a forma mais exaltada do elemento que representa. Numa escala entre sopro, brisa, vento e ventania, ele fica mesmo é com os tornados e os furacões, incontrolável e arrasador em sua passagem.

Todos nós, se não o somos, temos parentes, amigos, conhecidos, ou mesmo cruzamos diariamente com pessoas que são fiéis representantes dos muitos aspectos que essa carta simboliza. São sempre pessoas muito analíticas, fiéis às suas crenças, ideais, filosofias e princípios, frias e calculistas em sua forma de pensar, mas de temperamento esquentado, que falam o que pensam e, por isso mesmo podem ser consideradas, por vezes, imprudentes. São excelentes estrategistas, planejando a longo prazo, habilidosos na forma de conduzirem seus interesses e defenderem suas causas. Ótimos amigos, sempre ao nosso lado evitando que soframos qualquer forma de coação e procurando resolver todos os nossos problemas. Mas como inimigos, são inigualáveis: furiosos, julgadores, dominadores, maquiavélicos, verdadeiros guerreiros prontos para derrotar a quem ou ao que se interpor entre eles e suas vontades.

Em situações bastante cotidianas os encontramos entre os executivos, os administradores, os gerentes, os que trabalham no mercado de ações, os analistas econômicos, advogados, promotores, juízes, delegados, detetives, policiais, soldados, técnicos em computação e até mesmo nos editores, ombudsman e críticos de determinadas seções dos jornais e revistas, bem como nos professores de ciências ou matemática. Enfim, em todas as profissões quando a clareza mental, a capacidade de analisar seguindo regras específicas, baseando-se em padrões básicos onde tudo deve ser “o preto no branco”, intelectualmente capaz de identificar o mal e condicionar-se em destruí-lo, se faz necessário.

Evidente podemos, aqui, também mencionar aspectos menos louváveis de tão intrépido Cavaleiro: o fanatismo, a hiperatividade, o fato de, sendo cerebral demais, perder contato com a realidade e, especialmente, com as suas emoções. Em seu descontrole, pode tornar-se um carrasco, distribuindo sentenças mortais a torto e a direito, um revolucionário sem causa, crente numa utopia barata do tipo: “ Se hay gobierno, soy contra!”, na verdade comprometido com nada e completamente errático.

O imaginário popular cultua, especialmente nas religiões afro-brasileiras e, mais especialmente ainda, na cidade do Rio de Janeiro a figura heroica de São Jorge, um cavaleiro que, de acordo com a “Lenda Dourada”, em sua busca de corrigir injustiças e defender os fracos, acabou matando um dragão que aterrorizava uma província da Líbia. Como prêmio ganhou uma grande recompensa e a mão da princesa daquele lugar em casamento e, por conseguinte, metade do reino. São Jorge, fiel aos seus princípios, deu todo o dinheiro ganho para os pobres e nada mais aceitou, seguindo seu caminho em busca de novos embates com o Mal, o qual ele identifica e destrói.

Quando essa carta surge num jogo de tarot serve para avaliarmos se realmente vale o esforço a enorme energia que muitas vezes despendemos em algo que naquele momento nos parece fundamental, imprescindível e digno de todo o nosso empenho, custe o que custar. Se está bem equacionado, analisado em cada uma de suas partes, avaliadas suas consequências e métodos (não vamos “atropelar” nada ou ninguém para conseguirmos o que queremos, não é mesmo?) que pretendemos empregar. Se não estamos encarando os fatos apenas de maneira racional, calculista, abrindo mão da emoção, da intuição. Se estamos sendo pacientes, prestando atenção a tudo o que se desenrola à nossa volta, ainda que mantendo o foco em nosso objetivo, conscientes do perigo que é ignorar ou desprezar quem nos cerca.

E, se depois de todos os aspectos terem sido perfeitamente considerados e julgados, se decidirmos por seguir adiante, com força e destemor, mantendo-nos firmes no que acreditamos, devemos lembrar que a verdadeira coragem não é a força brutal dos heróis vulgares, mas a firme opção que fazemos pela virtude e razão.

E, por via das dúvidas, podemos sempre invocar alguma ajuda externa: "Valei-nos São Jorge"!




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Rainha de Espadas: justiça, igualdade e honra

 

“A Vós, ingleses, que não tendes nenhum direito sobre este Reino da França, o Rei dos Céus vos ordena e intima por mim, Jeanne la Pucelle: retirai-vos de vossas fortalezas e retornai a vosso país, pois senão vos farei tal mortandade que dela se guardará perpétua memória. Eis o que vos escrevo pela terceira e última vez, e não mais escreverei”.         

         Assinado: Jesus, Maria e Jeanne la Pucelle

O parágrafo acima, claro, objetivo, corajoso, extraído de uma carta pedindo a rendição dos ingleses, foi escrito por Jeanne la Pucelle, Joana D'arc, também conhecida como a “Donzela de Orléans, uma visionária e mística francesa que, vestida em sua armadura, lutou pela liberdade de seu país contra os ingleses, nas mãos dos quais foi, finalmente, queimada como herege. 
Santa Joana D’Arc, é o exemplo da mulher que assume um papel considerado masculino em sua época, defende brava e corajosamente um ideal, tem um componente espiritual altamente desenvolvido e sucumbe vítima da intransigência, da arrogância das instituições, da incompreensão de seus contemporâneos, sem nunca perder a sua fé. Uma arquetípica RAINHA DE ESPADAS.

O elemento Ar, que representa nossas atividades intelectuais, mentais, de raciocínio lógico e temperamento colérico, ou seja, gente de “pavio curto”, é tratado no tarot pelas cartas do naipe de Espadas. As pessoas dos signos ligados ao elemento ar (Aquário, Gêmeos e Libra) são conhecidas pela firmeza de sua vontade e capacidade de decisão. Tem gente que chama a isso de “personalidade forte”. Na verdade, são pessoas bastante decididas, francas, autossuficientes, orgulhosas, corajosas, sempre prontas a ajudarem a resolver os problemas, a defenderem causas próprias e alheias. São muito observadoras e frequentemente intrometem-se na vida alheia, o que pode causar-lhes  reações desagradáveis, ainda que estejam movidas das melhores intenções.

Sarcásticos, conhecidos pela sua rapidez de raciocínio e pelo humor ferino, podem provocar situações de extremo desconforto com suas críticas e comentários jocosos. Nem todo mundo está preparado para a maneira crua e direta que usam em suas observações e discursos. Entretanto, são verdadeiros paladinos da justiça, combatendo sempre a opressão e a miséria que é infligida em seus semelhantes. E aqui podemos fazer uma referência a uma figura clássica de defensor dos pobres e oprimidos: Robin Hood. E pode um homem representar um arquétipo feminino? Claro que sim, desde que ele tenha como característica um forte componente de bondade, sensibilidade, afetuosidade e elegância em seu proceder.

Estava pensando em como descrever esse arcano quando me ocorreu que poderia ser interessante associá-lo a duas figuras muito importantes dentro do sincretismo religioso vivido em nosso país: Iansã e Santa Bárbara. Ambas, grande guerreiras, implacáveis defensoras de seus pontos de vista, não aceitam submissão ou qualquer forma de prisão. Uma,  deusa nos altares dos cultos  afro-brasileiros. A outra, santa nos altares católicos.

    iansã Iansã, também chamada de Oyá, foi uma princesa real na Nigéria, mais especificamente em Irá há aproximadamente 3.500 anos. Foi mulher de seu primo, Xangô, ao lado de quem lutou pela conquista de vários reinos que formaram o império Yorubá. Mais tarde, abandonou-o para defender sua cidade natal, disposta, até mesmo, a enfrentá-lo. Grande conhecedora das fórmulas e práticas mágicas,valente, corajosa e dedicada, conquistou o seu direito ao trono de Oyó.
     De Olorum recebeu a missão de atuar sobre todos os aspectos da natureza através do ventos, que ela manipula conforme a sua necessidade de atuação. Às vezes, em forma de tormentas, provocando uma reciclagem, através de mudanças e destruição. Noutras, espalhando o pólen das flores e as sementes das árvores, com uma cálida brisa, permitindo a sua germinação. É ela também que afasta as nuvens, permitindo que Xangô lance seus raios que rompem os reservatórios de água dos céus, fazendo chover.


Santa Bárbara, a sua versão cristã, foi uma jovem mártir dos primeiros séculos do cristianismo.
Morava em Nicomédia, cidade situada na atual Turquia, cujo pai mantinha-a enclausurada numa torre mandada construir para que ela não se desvirtuasse com os hábitos amorais da sociedade da época. Ainda que lhe apresentasse pretendentes, Bárbara os recusava, o que seu pai interpretou como uma forma de rebeldia por viver tanto tempo isolada. Permitiu-lhe então, que fizesse pequenas incursões à cidade, e foi lá que ela se inteirou da nova fé, chegando a ser batizada.
Tendo sua conversão ao cristianismo sido descoberta, seu pai a entregou às autoridades que a torturaram de todas as formas, amputando-lhe os seios, inclusive. Bárbara nunca renegou sua fé para salvar-se.  Ao final de seu martírio, seu próprio pai degolou-a. Enquanto sua cabeça tombava, ouviu-se um trovão e um raio vindo dos céus fulminou seu pai e seus torturadores. Nesse momento, ela ascendeu aos céus, com sua cabeça novamente junto ao corpo e a espada de seu sacrifício nas mãos. Santa Bárbara é invocada como a protetora contra raios e trovoadas e padroeira dos mineiros, artilheiros, caçadores, arquitetos, bombeiros e dos que trabalham com explosivos e fogos de artifício. 

Essas duas figuras femininas, detentoras de uma força e coragem tipicamente masculinas, são grandes representantes da RAINHA DE ESPADAS, e podem ser vistas, também, como símbolos de otimismo, auto domínio, convicção numa crença, filosofia ou ideal, e uma grande habilidade de avançar em direção de seus objetivos e de fazer justiça.
É isso que, numa leitura de tarot, ao surgir essa Rainha, sempre dependendo da posição dela no esquema do jogo, pode-se interpretar como a necessidade de frieza e imparcialidade de julgamento, de capacidade de raciocínio, de interesse e defesa por uma causa nobre; de organização, estabelecimento de ordem, disciplina e, até mesmo emitir um conselho, uma orientação a quem se fizer necessário.