quinta-feira, 15 de maio de 2014

7 DE ESPADAS: O TIRO PELA CULATRA


Uma conhecida companhia italiana produtora de máquinas para fazer café expresso, destaca-se pela qualidade e criatividade das suas campanhas publicitárias. Há algum tempo lançaram uma em que associavam seus produtos aos heróis das histórias em quadrinhos. A ilustração acima, tirada de uma das suas publicidades, traz a Mulher-Gato, das histórias do Batman, surpreendida por um... gato! E, pela atitude de ambos, a surpresa, além de naturalmente inesperada, é bastante ameaçadora.

Ela, que certamente havia invadido o território do felino, busca esconder-se, até encontrar uma saída para a situação, usando uma xícara de fumegante café como escudo. O gato verdadeiro, por sua vez, tem como vantagem o tamanho e o fato de ter conseguido surpreender a presa antes que ela o percebesse e fugisse.

A situação toda transpira à tensão, constrangimento, expectativa, argúcia e espanto. A Mulher-Gato parece sobressaltada com a presença do animal. Ele, por sua vez, mantém a postura de ataque, o olhar concentrado e quase hipnótico e uma falsa serenidade, tão própria de quem está acostumado a caçar, utilizando-se de armadilhas e estratégias para conseguir seu intento.

No tarot, o 7 DE ESPADAS pintado pela ilustradora inglesa Pamela Smith remete ao mesmo conceito imagético que a imagem acima pretende retratar: um indivíduo bastante estranho, com uma atitude ladina, carrega 5 espadas, removidas, provavelmente, de uma tenda. Sua intenção parece ser a de desarmar o inimigo, entretanto seu plano parece fadado ao insucesso, visto não ter conseguido carregar todas as espadas. Pior é que duas delas, das deixadas para trás, poderá ser usada pelo seu oponente, por aquele que foi tapeado, iludido, roubado, para ferir mortalmente o incompetente ladrão.

O que chama a atenção nas duas imagens que ilustram este texto, e cuja realização as separa por um século, é o fato que, tanto ao ladrão de espadas quanto à Mulher -Gato, faltaram disciplina e planejamento. A atitude de ambos é claramente amadorística, desorganizada, deixando-os desprevenidos, sem um plano-B, sem um contra-ataque preparado. Ambos foram impetuosos e inconsequentes. 
O 7 DE ESPADAS pode simbolizar uma forma de esperteza que costuma resultar num "tiro pela culatra". Ao invés de usar o cérebro (naipe de Espadas) para resolver determinada situação, a pessoa opta pela "lei do menor esforço", agindo intempestivamente, desprogramada, contentando-se com os sofríveis resultados das tentativas, ao invés de investir na solidez e garantia da obtenção da totalidade do produto final. 
A atitude da figura na carta do tarot é bastante suspeita, favorecendo uma imagem de corrupção, de espionagem, mentira, intriga, que pode ser utilizado para justificar a simbologia desse arcano menor. De qualquer forma, fica claro que o sucesso da empreitada é, tão somente, parcial pois ele não consegue se apossar de tudo o que pretendia.

Na fotografia maior, nem mesmo a esperteza, habilidade, e destreza da Mulher-Gato a fazem imune ao plano descuidado que utilizou para surrupiar o que lhe interessava. Ainda que busque ocultar-se atrás da xícara, sua tática não resultou em bons resultados e, muito provavelmente, cairá na armadilha que ela mesma armou.

Num outro ponto de vista, provavelmente o do gato e das pessoas que tiveram suas espadas roubadas, o 7 DE ESPADAS nos lembra a não permitirmos que se obtenham vantagens injustas sobre nós. Alerta para que se cuide daquilo que se possui, de manter-se firme em suas convicções e não fazer aquilo no que não se acredita. 
O que, entretanto, não se deve deixar de considerar e refletir é que a desconfiança e a manutenção de segredos, quando exagerada, pode conduzir muito mais ao isolamento do que à um possível ideal de segurança. Lembre-se: precaver-se não significa tornar-se paranoico.

terça-feira, 13 de maio de 2014

10 DE PAUS: Opressão consentida


Tem gente que se testa o tempo todo. Vai acrescentando, uma a uma, mais obrigações às muitas outras que acumula, só para se provar poderosa. É o Complexo de Super-Homem, de quem acredita que tudo pode, como se houvesse uma necessidade intima de provar-se competente, imbatível, indispensável, de ser a única e confiável solução para os problemas de todos os demais.

Costuma justificar-se dizendo que não tem paciência para esperar que os demais cumpram suas respectivas partes, portanto assume toda a responsabilidade sobre o que há para ser feito. Nada o impedirá de perseguir até o fim seus objetivos, nem mesmo o fato de cumpri-los, muitas vezes, de maneira maniqueísta, sem buscar o prazer na execução, mas satisfazendo-se em cumprir o "dever" auto atribuído.



Nesta centenária imagem do 10 DE PAUS um homem semi-curvado atravessa o campo, dirigindo-se à umas edificações, carregando um enorme feixe de galhos. A alusão ao peso e ao desconforto dos pedaços de madeira que lhe impedem a visão do caminho, além da forma desajeitada que os galhos estão arrumados em seus braços, sugerem que, muito provavelmente, teria sido mais sábio ter carregado feixes menores e feito mais viagens, ao invés de sobrecarregar-se tentando fazer tudo de uma só vez.

Esse mesmo espírito é semelhante ao que vemos na foto ao alto, onde o homem está praticamente impedido de dirigir seu carro, soterrado por uma impossível quantidade de caixas. Ele também  demonstra não estar usando o melhor de suas habilidades, nem obtendo algum tipo de satisfação na execução de tão absurda tarefa. Na verdade o seu olhar é de uma pessoa oprimida, sem liberdade de manobrar sua condução. Falta-lhe criatividade e flexibilidade, visão do 
conjunto e consciência da importância das partes.

Do fogo criativo e regenerador do naipe de Paus, só restou a demonstração de força, o cabo-de-guerra que o condutor trava consigo mesmo. "Vou provar que eu sou mais forte do que eles supõem", seu olhar transparece, enquanto que ele se afoga sob o peso dos desafios autoimpostos.

Tolice.

Não é a quantidade de projetos, de ideias, de possibilidades, que definirão a capacidade de alguém, mas a qualidade do resultado e o prazer descoberto e vivido a cada etapa de concretização de cada um dos seus desejos. Fogo é pura paixão incontida, é desejo não domado, é a força vital fluindo e trazendo realização. É liberdade, claridade, luz e calor. Não deveria ser oprimido, aprisionado, limitado, contido.

Os desejos são muitos, as vontades também; o leque de interesses é amplo e as possibilidades, inúmeras. Por que, então, não vive-las uma a uma, experimentando o prazer único que cada uma proporciona em sua realização? Por que, ao invés de buscar alegremente o calor produzido pela fogueira que ilumina a noite escura, importar-se e ocupar-se apenas da tarefa de carregar a madeira?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A TORRE: uma faxina necessária



Creio ser impossível olhar com absoluta indiferença para essa foto. O indivíduo, decapitado, aguarda, até que tranquilamente, enquanto sua cabeça é literalmente agitada dentro da máquina de lavar roupas. Seu rosto, num ricto de dor e desespero, deixa claro que, ainda que o corpo não demonstre, o que vai pela sua cabeça é perturbador e, sobretudo, que o processo de higienização não é dos mais confortáveis.
Entre outras possibilidades associativas, essa foto, a TORRE, Arcano XVI do Tarot é a que mais se destaca.
Basta olharmos para a maioria das interpretações artísticas desse Arcano para vermos que o raio divino, o relâmpago da consciência, atinge o topo da torre. E, quase sempre, há uma coroa encimando essa construção que se despedaça, do alto, em consequência de um evento alheio ao seu controle ou à sua vontade. Afinal, quem controla os desígnios divinos?
Se fizermos um paralelo entre a figura humana e a TORRE, veremos que sua posição também é ereta, altiva. Destaca-se da paisagem que a cerca e elevando-se, o mais possível em direção aos céus, à morada dos deuses, ao Olimpo, o Éden onde gostaríamos de viver, semideuses que acreditamos ser. Em nossa volúpia pelo poder, em nossa ambição em sermos donos e senhores de tudo e de todos e, até, dos nossos destinos, construímos um ego de desmedidas proporções. Tão fascinados estamos com nossa estatura e o quanto ela nos permitirá alcançar, que chegamos a nos esquecer da base, do terreno em que nos apoiamos, da fragilidade dos elementos em que nos apoiamos para nos destacarmos dos demais.


Como o Dr. Frankenstein, do romance da Mary Shelley, não sabemos, ao final, o que fazer com o Monstro que criamos, remendando pedaços nem sempre compatíveis e, muito menos, harmoniosos. Nos recriamos, numa reles e ridícula imitação do Criador, nos acreditando os novos Prometeus, capazes de insuflarmos uma pretensa nova vida em nossos pequenos corpos.
Nada permanece inteiro se não for construído com cuidado, técnica, atenção ao detalhe e, sobretudo, seguindo um plano bem desenhado e usando material de primeira. Lembram-se da história dos 3 Porquinhos e o Lobo Mau? O único que não teve sua casa destruída pelo sopro do lobo foi aquele que a erigiu com tijolos, madeira, argamassa e telhas. Ou seja, ele não optou por um simples e eventual abrigo, feito às pressas e descuidadamente, como os seus irmãos, que pensaram apenas no imediato, na situação presente. Ele, Prático (esse era o seu nome, e não é por acaso...), sabia que o lobo era mais forte, mais ladino, mais perigoso e que não seria uma única vez que esse embate entre eles se travaria. Construiu, conscientemente, pensando no futuro, na durabilidade, na relação custo-benefício que isso lhe acarretaria a longo prazo. E, portanto, foi o único que venceu as ameaças que, tão inteligentemente, soube enfrentar. 


A TORRE sendo destruída por um fenômeno que vem do mais alto, bem mais alto do que ela, simboliza um momento de verdadeira libertação dos indivíduos que estão emparedados por aquelas paredes, alheios à realidade que os cerca, protegidos apenas por suas fantasiosas pretensões, sua elevada autoestima, seu desconforto em reconhecer-se parte daquilo do qual ele tenta se isolar. A catástrofe o derruba do alto de seu castelo de areia e o obriga a colocar os pés no chão, na realidade.
Adeus delírios de grandeza. Adeus complexo de superioridade. Adeus Monstro feito de retalhos e sem alma. É chegado o momento de se olhar de frente para um espelho e perguntar-se "Quem sou eu, de verdade?"
Difícil? Doloroso? Assustador? Com certeza. Mas necessário. Deve ser o mesmo que a roupa suja, com traços de perfumes caríssimos, restos de alimentos sofisticados, dos elogios recebidos, das grifes que representam o status de seu dono e o suor de festas intermináveis pensaria se possível isso fosse, ao ser colocadas numa máquina de lavar. Mas de lá elas sairão renovadas, livres de todos esses pretensos atributos, novamente colocadas diante das funções que melhor exercem e onde se reconhecem: uma camisa é só uma camisa, e por aí adiante.



Esse homem da foto aguarda essa mesma faxina. 
 Aguarda ter todos os andaimes e muletas que sustentam um indivíduo que não é mais ele, mas um ser irreconhecível, uma verdadeira colagem de falsos atributos e de absurdas fantasias, serem desconstruidos, lavados num processo de limpeza forçado, ao qual talvez tenha se recusado submeter. Muita agitação, muita trituração, muito sabão e água limpa serão necessários para remover as manchas do seu conhecido complexo de inferioridade, do medo que lhe descubram a verdadeira estatura, da sua eterna busca em "ter" porque não sabe "ser.
Mas ao final do processo, ele, "novo em folha", estará pronto para recomeçar. Às vezes do zero. Às vezes, com alguma sabedoria adquirida. Mas, com certeza, irá reerguer-se, aos poucos, procurando evitar repetir os mesmos erros. 

Que desta vez o faça sem querer surpreender, agradar ou humilhar o vizinho, mas para que sua nova estrutura abrigue um indivíduo melhorado: ele mesmo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

TEMPERANÇA: o Arcano XIV e o conceito de Frugalidade



Estava folheando um livro quando essa imagem surreal capturou de tal forma minha atenção que, depois de observá-la, decidi usar como um exemplo de similaridade imagética ao conceito do Arcano XIV do Tarot. 

Vivemos num sistema em que é muito difícil pensar na ideia de que menos é mais. Não apenas dentro de um mero conceito estilístico, decorativo, supostamente "fashion". Estamos cercados de tantos atrativos, de tantas tentações, de um sem-número de apelos e possibilidades, vivendo dentro de um grande, global shopping center, que fica muito complicado, senão impossível, nos contentarmos com apenas e tão somente o essencial.
Somos vitimas de uma febre consumista que nos leva a acreditar que nunca seremos felizes enquanto não abarrotarmos muitos cabides e gavetas com peças de vestuário. Óculos, sapatos, bolsas, precisamos de muitos, para acompanharmos a moda do dia e combinarmos com nossos diferentes estados de humor. Vidros e mais vidros de perfumes, potes de cremes para todas as partes do corpo, shampoos feitos de óleos, sementes e ervas exóticas em combinações só imaginadas por bruxas de histórias infantis, poluem nossos banheiros. Enquanto isso, não sabemos mais onde guardar ou descartar TVs, telefones, tocadores de DVDs e relógios que, há poucos meses, eram a última e definitiva revolução da eletrônica.


 Gostamos de excessos. Colecionamos coisas, pessoas, contatos, objetos, na vã suposição que eles um dia nos resgatarão de alguma terrível situação.
Daí então, olho para essa fantasia fotográfica, ou ela olha, debochando, para mim. Só sei que aquilo que a mim ela representa é exatamente o estilo de vida que eu quero ter: descomplicado.
Na angelical presença que estampa a carta da TEMPERANÇA, Arcano XIV do tarot, o conceito a ser compreendido é exatamente esse: a moderação. A alegria encontrada nos pequenos prazeres da vida. 

É saber diferenciar o que realmente necessitamos daquilo que apenas queremos ter para nos exibir, nos sentir poderosos, nos distrairmos, como risíveis substitutos de outras frustrações. Isso feito e compreendido, é necessário que nos ajustemos às nossas condições reais, evitando o entusiasmo, impulsos e as paixões de última hora, e privilegiando o autocontrole. Nem oito, nem oitocentos, sem privar-se daquilo que nos é fundamental, mas também sem cometer desatinos.

Temperar é, antes de mais nada, saber dosar. Um pouco disso, combinando com um pouco mais daquilo, misturado àquilo outro, sem exageros. Ou seja, ser sóbrio e equilibrado em tudo na vida. Parece difícil, não é mesmo? E é realmente. Por isso mesmo, quando o Waite encomendou uma carta que representasse a busca do equilíbrio, físico, mental, espiritual e emocional, sua ilustradora, a artista Pamela Smith usou exclusivamente a figura de um anjo. A imagem de alguém que não necessita de praticamente nada para existir... e bem!


 O anagrama da palavra TEMPERANÇA é PARCAMENTE, que significa "muito pouco, quase nada". Isso, evidentemente não é a pregação da miséria e o fim da evolução dos produtos ou do comércio dos mesmos. Nem é um descabido manifesto pelo retorno às cavernas, ou a uma existência de absoluto ascetismo, e o completo abandono de tudo aquilo que nos facilita a vida. Isso também seria ausência de sensatez, de lógica e de saber conciliar as coisas, ou seja, ausência dessa mesma TEMPERANÇA.
Frugalidade não é abstinência ou jejum, mas certamente é o oposto de comer uma caixa de bombons, acompanhados de um litro de refrigerante. É não cometer excessos sem, entretanto, deixar de sentir-se bem, satisfeito e feliz.


Talvez seja exatamente essa ideia, que me parece tão explicita na imagem que motivou este comentário. Repare que a mulher que possui tudo o que necessita: o alimento que a nutre, as vestes que a cobrem, o abrigo para descansar em paz. Ou seja, os necessários recursos e o potencial para se desenvolver, a liberdade de desfrutar seus espaços e domínios, o contentamento e a alegria de bastar-se e ao mesmo tempo comungar com todo o mais que a cerca, além disso, sentir-se protegida por uma energia, como numa redoma, invisível aos olhos, mas de elevado poder e efeito. Há, sem dúvida, um entendimento e uma reciprocidade entre ela e o Universo.
Isso, em essência, é sentir-se ajustado. Isso, é TEMPERANÇA.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ÁS DE PAUS: as chamas da Criatividade


Quando penso em criatividade, mas criatividade no seu mais puro sentido, aquele que fala em “dar vida” a algo que, de alguma maneira, necessita que alguém “canalize”, imagino algo semelhante à imagem acima. 
Tudo bem que o Bob Dylan seja um reconhecido artista e, portanto, muito fácil associar qualquer imagem dele (ou de qualquer outro artista) ao tema criatividade. Mas o que sempre mais me chamou a atenção nesse pôster desenhado pelo célebre artista gráfico norte-americano Milton Glaser, que também foi a capa de um disco e de um CD dele, é o fato que os cabelos (ou a parte superior do crâneo) parecem chamas, num crepitar alucinógeno.

Penso que, graficamente, o processo criativo, essa fagulha que provoca incêndios transformadores, que coze a argila que permite as formas e que insufla a vida em tudo que toca, não poderia ser melhor representado. Se repararmos bem, não existe um padrão nas formas sinuosas, nem na combinação cromática. Tudo está em movimento. Nada é igual e nem se repete. 

Ainda não existem uma forma ou uma idéia únicas, mas há um pulsar de vida que promete novas maravilhas. Vontade, desejo, coragem de assumir riscos, ousadia, tudo se agita numa dança de acasalamento que acabará por gerar novos frutos. 

 
 Quando observamos algumas representações do Budha encontramos, no ponto mais elevado de sua cabeça o chamado Lótus de Mil Pétalas, aquele sinal que simboliza a sua conexão com o Universo, por onde a inspiração penetra seu ser, onde a Iluminação acontece. Percebo, ainda que de uma forma de ilustrar típica dos anos 70 e 80, a mesma intenção, do artista gráfico, em retratar esse homem cujas letras e músicas ajudaram a expressar os anseios de uma geração. 


 No tarot, o ÁS DE PAUS, como todos os outros 3 Ases, representam promessas, possibilidades, algo sendo concebido. Paus, sendo a transcrição gráfica do elemento Fogo,
fala de energia. Daquela energia que nos faz sentir motivados, que nos incita a seguir adiante, que nos faz explorar novos recursos, que nos faz acreditar, ter fé e a experienciar algo que está além do material, racional ou do emocional.

Paus é a varinha de condão das fadas, que todos os desejos nos concedem; Paus é a colher da feiticeira, a agitar intenções em seu caldeirão que cozinha realidades. Paus é a vassoura das bruxas, que as permitem desligar-se da realidade de voar num plano mais elevado. Paus é também o cabo do instrumento que nos permite vencer adversidades, explorar recursos e construir novas situações. Paus é o bastão do Mago, servindo-lhe de “antena” e conectando céu e terra. Paus é também o bastão do jogador que, numa tacada, impulsiona a bola e faz o jogo acontecer.
 E o que é Criatividade, a não ser isso tudo? 
Sejamos, então, a bola, impulsionada em seu vôo, pelo poder do Universo.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O LOUCO: o salto no desconhecido


Um homem flutua, segurando balões de gás, sobre as ruas de uma metrópole. Fantástica imagem! A cidade, em seu desenho retilíneo e preciso, na impessoalidade de suas formas, no movimento constante dos carros que trafegam suas ruas e avenidas transportando seus habitantes, na claridade ainda acinzentada do amanhecer (ou será anoitecer?), na altura ciclópica de seus arranha-céus, parece alheia ao homem que flutua por seu céu.
Quem é, o que faz e pensa e para onde vai esse homem, chapéu na cabeça e maleta na mão? Um anjo disfarçado de executivo? Um inventor maluco? Um novo super-herói? O que motiva alguém a lançar-se nas alturas, confiando apenas numa meia dúzia de balões e ao sabor dos ventos? Quem é esse ... LOUCO?
Sem número, zero ou 22, a carta do LOUCO é aquela que simboliza o Tudo e o Nada a um só tempo. Por paradoxal que pareça, ela é todas as outras 21 cartas dos Arcanos Maiores, e nenhuma delas também. É a sabedoria contida em cada uma das lâminas do tarot, adquiridas através da experiência em viver o significado dos seus símbolos, e, no mesmo momento, ela é a tolice de quem ainda vive desconhecendo essas virtudes e sua importância para a própria evolução. 


Nas cartas encomendadas pelo ocultista Waite à artista plástica Pamela Smith, essa figura é de um jovem dinâmico, de largos passos, vestido com uma túnica verde florida (a lembrar o Homem Verde, comum em outras mitologias), um chapéu decorado com uma pena que aponta para o céu, e, finalizando, um bastão que prende uma pequena trouxa sobre um ombro e uma rosa branca numa das mãos. O dia ensolarado e a claridade do ar das montanhas, tão afastado de onde os homens vivem, atraem seu olhar para o alto, e, ignorante do fato de que está a um ou dois passos de um precipício, caminha destemido para ele. Como companhia, apenas um cão, que percebendo o que está para acontecer, procura evitar que ele salte no vazio, mordendo-lhe o calcanhar.  Essa é a típica figura da espontaneidade, da despreocupação, da extravagância, da coragem e destemor que só os muito loucos ou os muito sábios possuem. Há que acreditar-se muito e ter uma inabalável fé na proteção divina para intentar algo, aparentemente, tão absurdamente irracional. Mas é exatamente isso que o LOUCO do tarot está por fazer: arriscar-se. Dar um salto mortal, sem rede de proteção.

O LOUCO, na taromancia, sempre foi visto como o rebelde, aquele que se sente desajustado diante de uma situação estabelecida; é a pessoa ou o evento que fogem à norma, ou o ingênuo, o inocente, o inexperiente que ainda tem muito a aprender. Ele costuma ser entendido como alguém despreocupado, sem planos para o futuro, sem compromissos com o passado, sem preocupações com o presente. Alguns lhe enaltecem a personalidade, forte, única, pois confia em si e acredita em tudo o que faz. Outros o vêem como algo misterioso, que não consegue ser explicado racionalmente e que, portanto, ameaça a estabilidade daquilo tudo que consideramos normal, apropriado, natural, evidente, seguro, confortável, fácil, óbvio, legal, verdadeiro, estabelecido, conveniente, etc.


Comparando as duas imagens, o que ressalta é que ambos estão prontos para "caminhar no ar", dar um salto para uma nova fase, um novo tempo, um outro lugar, uma nova forma de pensar, uma nova etapa da vida. A possibilidade de aventura contida nesse gesto, nesse passo rumo ao abismo, nesse flutuar por sobre o mundo como o vemos e compreendemos, é a grande qualidade desse Arcano. Sua mensagem é ser autêntico e, para tanto, não temer infringir convenções, abandonar velhos métodos,

deixar de lado o medo do inesperado, aceitar as surpresas e permitir-se começar algo novo (mesmo que seja novo apenas para si mesmo), que ainda não tenha sido testado.
Se não houver uma dose de infantil ingenuidade (os balões de gás), de pureza de alma e intenções (a rosa branca), de uma sensação de absoluta liberdade (voar pelo céu, estar no alto das montanhas), de não conformismo (a extravagância no voar sobre a cidade, de saltar por sobre o abismo), de busca de novas experiências (a mala e a trouxa são pequenas e muito pouco podem levar daquilo que já conseguiu), se nada disso houver, esse homem ainda não está preparado para se iniciado nos mistérios da vida, que é exatamente o que as demais 22 cartas do tarot revelam. 


O LOUCO é aquele que está aberto a tudo o que o futuro oferece, sem preconceito, sem preocupações, pronto a envolver-se com o inesperado, sentindo-se impelido a lançar-se a grande aventura que é Viver por um chamado de fé e absoluta confiança no Universo, crente que tudo vai dar certo.
E lá segue o homem que voa segurando-se aos balões, flanando pela brisa que envolve a cidade, espírito livre, aproveitando cada inesperada oportunidade, buscando a si mesmo e encontrando-se em cada novo aprendizado, em cada nova experiência.

terça-feira, 29 de abril de 2014

A JUSTIÇA: uma questão de equilíbrio.


Quando pensamos em JUSTIÇA é quase impossível não a associarmos à ideia de crime e castigo, erro e punição, causa e efeito, aqui se faz e aqui se paga. E ela é tudo isso, e muito mais. É, sobretudo, a ideia de equilibrarmos os prós e os contras; de vermos, isentos de tendências, os dois lados de uma mesma questão; de investigarmos o que há por trás das ações cometidas e que as justifiquem. A Justiça, chamada “dos homens”, essa que tem tribunais, acusadores, defensores, juízes e testemunhas, é a física. Existe uma outra, espiritual, que faz parte da nossa alma, que regula as nossas atividades psíquicas, que nos equilibra interiormente, e é essa que, mais frequentemente, o Arcano VIII do tarot, simboliza.

Agora, um pouco da história, da lenda, do mito dessa senhora, a JUSTIÇA:


Métis engravidou de Zeus, mas o Oráculo predisse que essa criança iria ser mais poderosa do que ele. Para evitar esse confronto, ele Zeus engoliu Métis, fazendo com que a gestação ocorresse dentro dele, mais especificamente em sua cabeça. Chegado o momento do parto e sentindo fortíssimas dores na fronte, ele pede a Hefestos (Vulcano), o ferreiro divino, que lhe abra a fronte com um machado. Isso feito, de dentro da cabeça de Zeus surge adulta, altiva e armada, Palas Athena (Minerva). A jovem pede ao pai que lhe permita permanecer virgem (palas) para sempre, pois só assim, longe das paixões, não se corromperia ou deixar-se-ia seduzir e perder a sua lógica, a sua razão. Essa deusa é um símbolo do combate pelo amor à verdade. 
Athena (Minerva) era irmã do solar Apolo, deus da harmonia em cujo templo, lia-se à entrada: “Conhece-te a ti mesmo”. O que isso significa? Que é necessário que reconheçamos nossas verdades, saibamos quem somos realmente e coloquemos às claras as nossas verdadeiras intenções. Devemos nos desmascarar frente a nós mesmos, não tentando encobrir nossos erros e defeitos, ou nossa índole, sob espessa camada de desculpas e justificativas vãs. 

Palas Athena fazia-se acompanhar por uma coruja, ave noturna cuja cabeça gira 360º e os olhos devassam a mais densa escuridão garantindo que todos os detalhes, não importa o quão escondidos ou remotos possam estar, serão vistos, coletados e analisados. Um escudo, com a cabeça da Medusa incrustada, fazia parte do figurino da deusa. Aí também reside uma mensagem pois, diante da Medusa, todos ficavam petrificados. Isso significa que somente aqueles cujas verdadeiras intenções não são motivadas por paixões, tendências ou teimosia, não ficarão paralisados de medo e horror. E, como se todo esse aparato não bastasse, Niké, a deusa alada da vitória, era sua companheira constante, como forma de reafirmar que a verdade sempre triunfa.

Quando a carta da JUSTIÇA surge numa leitura de tarot pode significar que o sujeito deve parar, dar um tempo e analisar friamente a situação antes de prosseguir; situações legais (jurídicas) podem acontecer na vida do consulente; leia e estude detalhadamente documentos, propostas e compromissos que tiver que assinar, dando seu parecer; tempo de ser honesto, responsável e justo; buscar seu centro físico, emocional e espiritual; prudência; procurar trilhar o caminho do meio, afastando-se das extremidades, dos 8 ou 800, dos excessos; é chegada a hora de colher o que foi semeado; justiça divina; tomada de consciência, agir embasado pela consciência; sabedoria; fidelidade no amor e nas amizades.

Estejamos atentos ao fato de que, não importa quem vença a batalha, é ele quem escreverá a história. Toda luta, toda guerra, toda batalha, inclusive as legais são, ao mesmo tempo, uma vitória e um massacre, dependendo apenas do ponto de vista de quem dela participa, de quem a vence e de quem a perde. A JUSTIÇA pode existir à luz de diferentes pontos de vista . O que nos parece injusto num determinado momento e sob uma certa ótica, pode ser assumido como algo bastante justo, com o passar do tempo. O que a carta da JUSTIÇA, no tarot, nos pede é que nos examinemos de forma lógica e bastante objetiva, que encontremos, em nós, a verdade e nada mais que a verdade, mesmo que a isso esteja condicionado o fato de termos de reconhecer que erramos e devemos corrigir o que fizemos.
Devemos assumir as nossas responsabilidades, perdoarmos as nossas fraquezas frente ao nosso próprio tribunal, e nos disciplinarmos em busca de uma maior harmonia, uma consolidação do nosso equilíbrio mental e espiritual. Que nossas ações e julgamentos sejam sempre feitos com sabedoria e amor, visando a harmonia e a cooperação.



Fica, como tema para uma possível meditação, um pequeno conto sufi:
 

Certo dia, um juiz perguntou ao mestre Nasrudin:- Mestre, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?

- O dinheiro, é claro - respondeu Nasrudin, sem pestanejar.

- O quê! - disse o juiz - Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Podemos encontrá-lo por aí sem grandes dificuldades. Estou sinceramente espantado com a sua opção, Nasrudin. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!

- Meritíssimo, cada um deseja aquilo que mais lhe falta! - respondeu tranqüilamente o mestre Nasrudin.